segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

70 anos de Steve Biko


Stephen Bantu Biko, ou Steve Biko, nasceu na África do Sul, em 18 de dezembro de 1946, e morreu em 12 de setembro de 1977, aos 30 anos, após ser preso e torturado. Ativista anti-apartheid sul-africano na década de 1960 e 1970, Biko não faz somente parte da memória política de seu país, mas também da memória da cultura ocidental. O Movimento da Consciência Negra de Biko agregou para si o slogan Black is Beautiful, que nos Estados Unidos destinava-se a dissipar a noção de que as características físicas dos negros — como cor da pele, detalhes do rosto e cabelos — seriam feias. O movimento também incentivava homens e mulheres a pararem de esconder seus traços afros alisando o cabelo, clareando a pele, etc. Porém, na África do Sul, a luta análoga era outra, muito mais básica, e o Black is Beautiful de Biko significava algo como “você tem que olhar para si mesmo como um ser humano e aceitar a si  mesmo como você é”.

Mas tais referências culturais são apenas ornamentos para a vida de um grande mobilizador da população negra sul-africana. As muitas organizações fundadas por Biko iam no caminho inverso das lições de inferioridade racial ministradas aos negros por ordem do governo da África do Sul. Ele desejava que os negros tivessem consciência de suas capacidades, que pudessem ocupar cargos destinados apenas aos negros, além do fim da educação limitada, pois muitas disciplinas simplesmente não podiam ser ministradas aos negros do país.
Em 18 de agosto de 1977, Biko foi preso em uma barreira policial e interrogado por oficiais da polícia. Esse interrogatório ocorreu na sala de polícia nº 619 do Edifício Sanlam em Port Elizabeth. O interrogatório durou 22 horas e incluiu tortura e espancamentos, resultando em coma. Ele sofreu graves ferimentos na cabeça e, após as torturas, foi acorrentado às grades de uma janela durante um dia inteiro.

Dias depois, em 11 de setembro de 1977, a polícia resolveu levá-lo, nu e algemado, para uma prisão com instalações hospitalares, mas ele morreu logo após chegar, em 12 de setembro. A polícia divulgou que sua morte foi resultado de uma prolongada greve de fome, mas a autópsia revelou múltiplas contusões e escoriações. Seu fim deveu-se a uma hemorragia cerebral. O jornalista Donald Woods, editor e amigo de Biko, e Helen Zille, mais tarde líder do partido político da Aliança Democrática, expuseram a verdade sobre sua morte.
A notícia espalhou-se rapidamente. O funeral foi assistido por mais de 10 mil pessoas, incluindo numerosos embaixadores e outros diplomatas da Europa Ocidental e dos Estados Unidos. O mesmo Donald Woods fotografou seus ferimentos no necrotério. Woods foi mais tarde forçado ao exílio, passando a fazer campanha contra o apartheid na Inglaterra. Também foi autor do livro Biko, mais tarde transformado no filme Cry Freedom, de Richard Attenborough, com Denzel Washington no papel de Biko.
Em 1978, a Justiça sul-africana decidiu que não havia provas suficientes para acusar os oficiais de homicídio. Faltariam testemunhas. E, em outubro de 2003, o Ministério da Justiça Sul-Africano anunciou que os cinco policiais acusados de matar Biko não seriam processados também em razão de insuficiência de provas.
Steve Biko nasceu em Ginsberg, bairro de King Williams Town. O nome do bairro é o do dono da fábrica de velas instalada no local no início do século 20. Ginsberg não gostava que seus empregados fossem muito longe quando não estavam na fábrica. Então, conseguiu que a administração municipal mandasse construir em torno dela as primeiras casas do futuro bairro.
Foi em uma dessas casinhas que Steve Biko cresceu. Foi criado pela mãe Alice, cozinheira no hospital vizinho. Inteligente e com grande capacidade de liderança, Biko estudava medicina quando foi expulso da Universidade da Província de Natal, no ano de 1972, em razão de suas atividades políticas. No ano seguinte, foi “banido” pelo governo do apartheid. A punição era incrível: ele não estava autorizado a falar com mais do que uma pessoa de cada vez. Também não podia escrever publicamente ou falar com a imprensa. Esta também foi proibida de citar qualquer coisa que ele dissesse.

Steve Biko tinha grande preocupação com o desenvolvimento de uma consciência negra. Pensava que tal desenvolvimento teria duas fases: a primeira seria de “libertação psicológica” e a segunda de “libertação física”. A bibliografia aprecia fazer a ligação entre Biko e a não-violência de Gandhi e Martin Luther King, mas ele sempre entendeu que a libertação física só se daria fora das realidades políticas do apartheid. Ou seja, havia antes que derrubá-lo. Outro fato que costuma ficar oculto são suas posições políticas. “Racismo e capitalismo são faces da mesma moeda”, dizia.
Em 1972, Biko foi um dos fundadores da Black Peoples Convention (BPC). Trabalhava em projetos de melhorias sociais nos arredores de Durban. Com o tempo, o BPC acabou por reunir cerca de 70 diferentes grupos de consciência negra e associações como o South African Student’s Movement (SASM), que desempenhou um papel significativo na Revolta de Soweto de 1976, a National Association of Youth Organisations e a Black Workers Project que apoiaram os trabalhadores cujos sindicatos não foram reconhecidos sob o regime do apartheid. Biko foi eleito o primeiro presidente do BPC e, como recompensa, recebeu a citada expulsão da escola médica.

Sobrou-lhe trabalhar em tempo integral para o BCP. Mesmo banido pelo apartheid, Biko ajudou a criar Zimele Trust Fund, fundo de assistência financeira a presos políticos e a suas famílias. Steve Biko era considerado perigoso pela habilidade para organizar a população e porque procurava investir nas comunidades e inspirar a juventude negra do país.
As circunstâncias brutais da morte de Biko tornaram-no um mártir e um símbolo da resistência negra ao regime de apartheid. Logo após seu assassinato, o governo sul-sfricano proibiu que uma série de pessoas falassem — incluindo Donald Woods — e fechou várias organizações, especialmente os grupos da Consciência Negra associados a Biko. O Conselho de Segurança das Nações Unidas respondeu com um embargo de armas contra a África do Sul.
Representando este homem também interessado por artes, educação e desenvolvimento econômico, a família Biko recusou a ideia de construir um mausoléu. Um túmulo grandioso talvez o retirasse da companhia de camaradas enterrados, como ele, em modestos pedaços de terra.
Nelson Mandela disse a respeito de Biko: “Eles tiveram que matá-lo para prolongar a vida do apartheid“.
Fonte: Sul21.com.br


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

6 Anos de Ufanisi!


Hoje é um dia especial, por vários motivos.

No dia 14 de dezembro de 1994, há 22 anos atrás, Nelson Mandela,
a principal inspiração para o UFANISI, lançava sua autobiografia: Nelson Mandela: Longa Caminhada até a Liberdade. 

Há 6 anos, no dia 14 de dezembro de 2010, este blog publicava seu primeiro post, que pode ser conferido neste link.

E a notícia mais importante de todas: Hoje, 14 de dezembro de 2016, acabo de descobrir que serei pai! 

Ainda não sei muito o que pensar, mas, como sempre faço, prefiro sempre agradecer. A todos que me fazem bem e me motivam com palavras e ações, e aos que me fazem mal, porque me inspiram a ser melhor ainda. 

O tempo passa rápido, né? As mudanças acontecem numa velocidade assustadora e as nossas prioridades mudam na mesma proporção.

Prosperidade!


domingo, 20 de novembro de 2016

Consciência Negra, uma atitude diária


A data de hoje tem um significado simbólico muito forte para nós. É um dia de reflexão, para ver onde avançamos e onde ainda precisamos avançar. Marca a data do assassinato de Zumbi, líder do Quilombo de Palmares, no ano de 1695. 

Palmares foi a maior expressão de resistência Negra ao sistema instituído, ao status quo escravista que reinava absoluto no Brasil. Por esta razão, o 20 de Novembro é muito mais celebrado pelas populações Negras do que o 13 de Maio, a data de abolição formal da escravidão em 1888, ideia vendida como se a nossa liberdade fosse um grande ato de benevolência da família real luso-brasileira e, por esta razão, rechaçada pela maioria de nós.

Que sejamos Negros e Negras, assim, com "N" maiúsculo, durante o ano inteiro. Celebremos a data, mas que nossas discussões, reflexões e batalhas sejam diárias. Que tenhamos coragem de enfrentar o sistema racista opressor por todos os meios necessários, tal qual fez Zumbi, Dandara, Luísa Mahin, Maria Felipa, Rolihahla Mandela, Mãe Stella de Oxóssi, Malcolm X, Martin Luther King Jr., Rosa Parks, Abdias do Nascimento, Angela Davis, Walter Sisulu, Maria Quitéria, João Cândido, o Levante Malê, a Revolta dos Búzios, os Panteras Negras, o Reaja e muitxs outrxs pelo mundo.

Vamos espalhar nossa beleza e nossa luta pelo mundo. Vamos estudar, ler sobre o passado dos nossos e das nossas, vamos ocupar os espaços de decisão e provar que nosso lugar é onde a gente quiser!

A Ancestralidade africana já nos ensinou: "Quando não existe inimigo no interior, o inimigo no exterior não pode te machucar".

Ubuntu! Ufanisi!


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Ex-refugiada de origem somali é eleita deputada estadual em Minnesota


Ilhan Omar se tornou, na terça-feira (8), a primeira americana muçulmana de origem somali a ser eleita para representar um Estado na Câmara, com uma clara vitória em Minnesota.
A maior batalha de Omar foi cravada durante as primárias de agosto, quando ela derrotou um oponente e garantiu a nomeação pelo partido democrata. Na Câmara ela vai representar um distrito diverso e liberal, que abrange a maior parte de Minneapolis.
Sua vitória também é vista como uma vitória nas causas progressistas e um impulso para eleger mais mulheres e representantes de minorias para cargos públicos.
Omar nasceu na Somália e passou quatro anos em um campo de refugiados no Quênia antes de imigrar para os Estados Unidos, aos 12 anos de idade. Ela contou ter ficado desapontada ao descobrir tamanha desigualdade racial, econômica e intolerância religiosa nos EUA.
"É a terra da liberdade e da justiça para todos, mas precisamos trabalhar para isso", contou ela ao Huffington Post no mês passado. "Nossa democracia é incrível, mas é frágil. Ela aconteceu através de muitos progressos, mas precisamos continuar o progresso para torná-la, de fato, 'justiça para todos'".
A desigualdade nos EUA foi o que a inspirou a se envolver com a política quando era uma adolescente, ao lutar por justiça em sua comunidade e em seu estado.
Aos 34 anos, e mãe de três crianças, ela adotou uma plataforma progressista, defendendo políticas educacionais acessíveis, reforma da justiça criminal, igualdade econômica e energia limpa.
O primeiro projeto de lei submetido pela agora deputada deve ser uma proposta que exige o registro eleitoral automático a partir do momento em que os adultos completarem 18 anos ou quando emitirem uma carteira de motorista, adiantou ela ao Huffington Post.
Ela reconheceu o significado histórico da sua candidatura e os desafios que superou para ganhar o assento na Câmara.
"Muitas vezes você é estimulado a ser tudo, exceto audacioso, mas acho que isso era importante para mim, competindo como uma jovem e competindo como alguém que é muçulmana, refugiada e imigrante."
"Acreditar na possibilidade que todas as minhas identidades ficassem em segundo plano e que minha voz como uma forte progressista iria emergir se eu fosse corajosa e acreditasse nisso - isso fez uma grande diferença para mim e para minha candidatura", finalizou.
Fonte: HuffPost Brasil

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Há 25 anos, Magic Johnson anunciava que tinha vírus HIV; hoje, é um dos mais poderosos do esporte

7 de novembro de 1991. Há 25 anos, o mundo do esporte ficava boquiaberto com o anúncio de Magic Johnson, que revelou ter contraído o vírus HIV após exames rotineiros na pré-temporada do Los Angeles Lakers.

À época, Johnson estava com 32 anos e acabara de vir de um vice-campeonato com os Lakers diante do Chicago Bulls. Com três MVP's e cinco títulos da liga, ele era o maior nome da NBA no momento e anunciou que em decorrência do vírus estava se aposentando.
O anúncio foi marcante e impactou o mundo inteiro, já que à época não se sabia muito sobre o vírus. E a maioria das pessoas mundo afora que o contraiam, morriam pela falta de medicação em decorrência da AIDS.
Menos de quatro meses depois, Magic já estava de volta às quadras sendo eleito MVP do All-Star Game. Mesmo sem atuar, ele foi votado pelos fãs para participar do evento e, com aval médico da NBA, entrou em quadra mesmo a contragosto de ex-companheiros como Byron Scott e AC Green, além de Karl Malone.
Muitos jogadores tinham medo de encostar em Magic devido ao vírus, apesar da NBA ter liberado o mesmo medicamente para jogar.
Magic Johnson vencendo mais um prêmio de MVP pelo Los Angeles Lakers.

A performance no All-Star Game garantiu a Magic a chance de fazer parte do histórico Dream Team de Barcelona-92, onde os Estados Unidos ganharam a medalha de ouro com Johnson, Michael Jordan, Larry Bird e cia.
Sob medicações para o tratamento do HIV, Magic Johnson tentou retornar às quadras na temporada 1993-94, mas um corte no braço, que causou pânico no ginásio, durante um jogo de pré-temporada, fez ele desistir da ideia porque não queria ser uma distração.
Magic ainda voltara aos Lakers como técnico e jogador, até se aposentar das quadras novamente, em 1996. E o sucesso e brilho de Magic não pararam por ali.
Pelo contrário, Magic Johnson se tornou mais influente, fora das quatro linhas.
O ex-jogador faz parte de um grupo de sócios que adquiriu o Los Angeles Dodgers, da Major League Baseball, e o Los Angeles Sparks, da WNBA. Fora isso, Johnson ainda é um dos donos da futura franquia da MLS de Los Angeles.
A Forbes elegeu Magic como o segundo sócio-minoritário mais influente do mundo, atrás apenas de Michael Jordan. Em 2015, ele ficou em terceiro na lista dos 50 mais poderosos do esporte na Califórnia.
Magic também é o décimo ex-atleta que mais faturou em 2016, tendo ganhado US$ 18 milhões (R$ 57,6 milhões) em salários.
Dentro ou fora das quadras, Magic é um vencedor que continua brilhando.
Fonte: ESPN

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Sugestão de Filme: Raça (2016)



Com o criativo e propositadamente ambíguo título original Race, que pode significar tanto "corrida" quanto "raça" em inglês, o filme retrata os gloriosos anos de Jesse Owens (Stephan James, de Selma), atleta Negro dos Estados Unidos, que entrou para a história ao desbancar a ideologia nazista de supremacia branca, vencendo quatro medalhas de ouro nas Olimpíadas de Berlim de 1936.

Um dos grandes trunfos do filme está em mostrar que o nazismo alemão não era muito diferente da Lei Jim Crow estadunidense (1876-1965), que segregava áreas coletivas como escolas, vestiários, ônibus, trens etc., impedindo que pessoas Negras, brancas e de outras etnias ocupassem o mesmo espaço.  Curiosamente, isso não aconteceu na Alemanha nazista durante os jogos, e todos os atletas dividiram o mesmo espaço.

Algo a se observar também é o quanto o racismo pode ser mascarado ou "suprimido", em prol de um efêmero sentimento nacionalista, proporcionado pela presença dos Jogos Olímpicos. Antes de se tornar um astro do esporte, logo ao chegar à universidade, Owens era discriminado inclusive pelos colegas e treinadores brancos. Mas, esse sentimento aparentemente muda, à medida em que ele vai quebrando diversos recordes e, principalmente, ao retornar de Berlim com quatro medalhas de ouro na bagagem, onde foi ovacionado por mais de um milhão de pessoas. Apesar de suas conquistas, Owens não recebeu os cumprimentos de um decepcionado Hitler (grande coisa...) nem o devido reconhecimento do governo de seu país, fato que só aconteceu postumamente. Além disso, continuou tendo de entrar pelas portas dos fundos e pelos elevadores de serviço.

O filme ainda mostra a importância de Leni Riefensthal (Carice Van Houten, de Game of Thrones), a cineasta que ficou famosa por ser a responsável pela propaganda nazista, sob comando do ministro Goebbels. Graças a ela, as imagens dos feitos de Jesse Owens sobreviveram às ações do tempo.

Raça  não se trata de um filme biográfico, já que foca em apenas três anos da vida de James Cleveland Owens (entre 1933 e 1936), utilizando o contexto histórico das leis segregacionistas nos EUA e o período pré-Segunda Guerra Mundial como referência. Não é a obra definitiva para que conheçamos a história do homem além do mito, mas levanta questões interessantes sobre o quanto somos bons em apontar o racismo nos outros, mas permanecemos apáticos e incapazes de reconhecê-lo em nós mesmos.

Sobre as conquistas de Jesse Owens nas Olimpíadas de Berlim, clique aqui.

Ficha Técnica
Título Original: Race
Direção: Stephen Hopkins
Elenco: Stephan James, Jason Sudeikis, Jeremi Irons, Carice Van Houten, William Hurt, Eli Goree
Ano de Lançamento: 2016





quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Ícones Negros: Ruth de Souza




Ruth de Souza fez história ao ser a primeira atriz negra a representar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Foi no dia 8 de maio de 1945, em O Imperador Jones, de Eugene O’Neil, numa montagem do Teatro Experimental do Negro, grupo fundado por Abdias Nascimento e Agnaldo Camargo. E seu feito ajudou a abrir caminho para o artista negro no Brasil.

Na televisão, foi uma das pioneiras. Passou pela TV Tupi, pela Record, TV Elxcelsior e, em 1968, Ruth de Souza foi contratada pela Globo para atuar na novela Passo dos Ventos, onde interpretou a mãe de santo Tuiá, uma mulher sábia cujos antepassados eram escravos, no Haiti. Logo depois, deu vida à Tia Cloé, uma escrava que liderou a luta pela liberdade nos Estados Unidos da Guerra de Secessão. Foram mais de 20 papeis na emissora, em quatro décadas de trabalho.


A menina do Engenho de Dentro

Na década de 1970, Ruth de Souza participou de clássicos da dramaturgia da Globo, como Pigmalião 70 (1970), Os Ossos do Barão (1973), O Rebu (1974), Helena (1975) e Duas Vidas (1976).Ruth Pinto de Souza nasceu em 12 de maio de 1921, no bairro do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Filha de um lavrador e de uma lavadeira, desde criança sonhava em ser atriz. “Eu era apaixonada por cinema. Queria ser atriz, mas naquela época não tinha atores negros, e muita gente ria de mim: ‘Imagina, ela quer ser artista! Não tem artista preto’. Eu ficava meio chateada, mas sabia que ia fazer; como, não sabia”.

Descobriu ao entrar para o Teatro Experimental do Negro, onde, além de Imperador Jones, atuou em Todos os Filhos de Deus Têm Asas e O Moleque Sonhador, também de O’Neil; Amanda, Joaquim Ribeiro; Anjo Negro, de Nelson Rodrigues; e O Filho Pródigo, de Lucio Cardoso. Em 1948, ganhou uma bolsa de estudos da Fundação Rockfeller e foi estudar na Howard University, uma universidade exclusiva para negros, em Washington. Nos Estados Unidos, estudou também na escola de teatro Karamu House, em Cleveland, Ohio.


Pioneira da TV Brasileira



A atriz também foi uma das pioneiras da TV brasileira. Participou de programas de variedades e musicais no início das transmissões da Tupi, até adaptar para a televisão, com Haroldo Costa, a peça O Filho Pródigo, que havia encenado no Teatro Experimental do Negro. “Eu acredito que foi o primeiro teatro na televisão, eu acho que fomos nós que fizemos”, conta. A primeira novela foi A Deusa Vencida (1965), de Ivani Ribeiro, na Excelsior. “Nessa novela todo mundo estava começando também, como a Regina Duarte”, recorda-se.

Ruth de Souza foi contratada pela Globo em 1968, para atuar na novela Passo dos Ventos, de Janete Clair. “Naquela época era muito agradável, havia muito entusiasmo de todo mundo. Sabe aquela coisa de querer fazer, ‘o que vamos fazer agora?’, querendo continuar o trabalho. Porque o ator sempre, nunca quer parar.”

Na emissora, fez mais de 20 novelas. Para ela, um dos lados bons de ser ator é ser avaliado pelo seu desempenho em um trabalho. “Uma grande vantagem é poder fazer um trabalho que, se for bom, o público não esquecerá.”

Em A Cabana do Pai Tomás (1969), de Hedy Maia, foi Tia Cloé, uma das líderes do movimento que levou à abolição da escravidão nos Estados Unidos dividido pela Guerra de Secessão: “Foi um sucesso muito grande, todo mundo me chamava de Tia Cloé”.


Dupla com Grande Otelo


Com Grande Otelo, fez uma dupla inesquecível em Sinhá Moça (1986), de Benedito Ruy Barbosa. “Do meio para o fim, eu e o Otelo tomamos conta da novela, porque os personagens eram muito divertidos. Eram dois maluquinhos, escravinhos malucos”, conta. A atriz já havia atuado em uma adaptação de Sinhá Moça para o cinema, em 1953, e por isso conhecia bem o texto. Mas, na novela, cabia o improviso. Apesar de dizer que improvisar não é o seu forte, Ruth de Souza lembra que acompanhava o ritmo de Grande Otelo, na sua opinião, “um ator completo, um gênio.”

Em Mandala (1987), de Dias Gomes, voltou a atuar com o ator, formando com ele, Milton Gonçalves e Aída Lerner a primeira família negra de classe média da TV brasileira. Também teve papéis de destaque em O Bem-Amado (1973). Ruth de Souza destaca que sempre teve facilidade para trabalhar com Dias Gomes e Janete Clair. “Eu tenho um grande respeito pelo escritor. Escrever não deve ser fácil. Eu não mudo nada, nem em teatro. Nunca foram difíceis os textos de Dias e de Janete, porque fluíam muito bem.”  

Outros trabalhos de destaque em sua carreira na emissora foram O Clone, de Gloria Perez; Memorial de Maria Moura (1994), adaptação do romance homônimo de Rachel de Queiroz, escrita por Jorge Furtado e Carlos Gerbase;  Amazônia – De Galvez a Chico Mendes (2007), de Gloria Perez e no seriado Na Forma da Lei, como a Velha Oxalá (2010).

Sua trajetória foi marcada por papeis em novelas de época – gênero da teledramaturgia que acha muito interessante. “Eu adoro fazer novela de época.  Exige uma postura diferente, um andar, roupa. Não sou saudosa de passado; é que era realmente muito mais elegante, o espetáculo era mais bonito.”

Cinema
A atriz estreou no cinema por indicação do escritor Jorge Amado em Terra Violenta (1948), adaptação de seu romance Terras do Sem Fim dirigida por Tom Payne. No mesmo ano, atuou ao lado de Oscarito em Falta Alguém no Manicômio.

Fez mais de 30 filmes, incluindo Sinhá Moça, também de Payne, que a levou a concorrer ao prêmio de Melhor Atriz do Festival de Veneza de 1954 – e que considera o seu “cartão de visita”, porque “no cinema, se é uma boa história, fica para a vida toda”. A atriz esteve também no clássico O Assalto ao Trem Pagador (1962), de Roberto Farias; e As Filhas do Vento, de Joel Zito Araujo, com o qual foi premiada no Festival de Gramado de 2004.

Sua admiração pelo cinema vem também do fato de conceder mais espaço, em sua opinião, para atores negros. Para Ruth de Souza, o preconceito sempre foi uma realidade com a qual precisou lidar. “O cinema sempre deu mais oportunidade para o negro, desde o Grande Otelo. Eu tive sorte na continuidade de trabalho, tanto no teatro quanto na televisão: não parei nunca nesses 50 anos. Sempre tive trabalho, mas são poucos os negros que têm. Isso foi benção de Deus.” 

Fonte: Memória Globo

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O Mito de Anúbis

Anúbis, deus dos mortos e guardião do Egito.

O CHACAL, ANIMAL que tem o hábito de desenterrar ossos, de forma paradoxal representava, para os egípcios, o deus Anúbis, justamente a divindade considerada a guardiã fiel dos túmulos e patrono do embalsamamento. Em algumas versões da lenda, ele aparece como filho do deus Seth com sua esposa Néftis. Entretanto, a versão mais comum é a de que ele é filho de Osíris, que se uniu com Néftis por tê-la confundido com sua esposa Ísis. Quando esta última deusa veio a saber do nascimento da criança, começou a procurá-la. Néftis, por temor a Seth, escondeu-a logo após o parto. Guiada por cães, Ísis encontrou o recém-nascido, depois de grandes e difíceis penas, encarregou-se de alimentá-lo e Anúbis se converteu em seu acompanhante e guardião. Dizia-se que estava destinado a guardar os deuses, assim como os cães guardam aos homens. 

REPRESENTADO POR UM CHACAL ou por um cão deitado, ou ainda pela figura de um homem com cabeça de chacal ou de cão, o deus Anúbis (Anpu em egípcio) era o embalsamador divino e um dos responsáveis pelo julgamento dos mortos no além-túmulo. No reino dos mortos, na forma de um homem com cabeça de chacal, ele era o juiz que, após uma série de provas por que passava o defunto, dizia se este era justo e merecia ser bem recebido no além túmulo ou se, ao contrário, seria devorado por um terrível monstro. Anúbis tinha seu centro de culto em Cinópolis, cidade do Alto Egito e recebia títulos exóticos como, por exemplo, morador na câmara de embalsamamento, governador da sala do deus ou senhor das colinas do oeste.

O DEFUNTO, TRAJANDO UM VESTIDO DE LINHO, era introduzido por Anúbis no grande recinto onde o julgamento seria realizado. Saudava, então, a todos os deuses presentes. Depois, pronunciava uma longa declaração de inocência formada por frases negativas:
Não pratiquei pecados contra os homens.
Não maltratei os meus parentes.

Não obriguei ninguém a trabalhar além do que era legítimo.
Não deixei de pagar minhas dívidas.
Não insultei os deuses.
Não fui a causa dos maltratos de um senhor ao seu escravo.
Não pratiquei enganos com o peso da minha balança.
Não causei a fome de ninguém.
Não fiz ninguém chorar.
Não matei ninguém.
Não pratiquei fraudes na medição dos campos.
Não subtrai o leite da boca das crianças.

E assim por diante, alegando que tinha vivido sempre à altura dos padrões de conduta impostos pelos homens e pelos deuses.

Fonte: Fascínio Egito

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Luke Cage, um Herói Necessário


Acabei minha maratona Luke Cage há menos de uma hora atrás. 13 episódios em 3 dias! Vou tentar ser o mais espontâneo possível, sem dar spoiler pra quem ainda não assistiu.

 "Marvel's Luke Cage" é uma série da Netflix criada por Cheo Hodari Coker, estrelada por Mike Colter, e que ainda tem Alfre Woodard (Mariah Dillard), Mahershala Ali (Cornell Stokes/"Boca de Algodão"), Simone Simmick (Misty Knight) e Rosario Dawson (Claire Temple), entre outros. Tem também a participação da atriz brasileira Sônia Braga, interpretando a mãe de Claire.

Luke Cage é um ex-presidiário que foi condenado por um crime que não cometeu. Ainda na prisão, ele torna-se cobaia de um experimento científico que acaba tornando sua pele impenetrável e a prova de balas. Desde que sai da prisão de Seagate, uma série de acontecimentos faz com que ele se dedique a proteger sua comunidade (o Harlem, em Nova York), ao mesmo tempo em que tenta limpar seu nome.
Comparando o personagem da HQ com sua representação em live-action, podemos dizer que Mike Colter foi uma excelente escolha pra viver o Herói do Harlem.

Mais do que sobre a sinopse da série, o que quero falar mesmo é sobre o que ela representa. Luke Cage é um herói necessário, por diversos motivos: por mostrar um dos raros heróis Negros, em um panteão de brancos, por todas as referências e citações a diversos ícones Negros (Frederick Douglass, Malcolm X, Martin Luther King, Marcus Garvey, Michael Jordan, Notorious B.I.G., Beyoncé, Duke Ellignton, Prince, Michael Jackson, Angela Davis etc.) e por ser uma obra de ficção que conta com vários elementos reais. Não há vilões caindo do céu com poderes extraordinários. No Harlem, os principais inimigos são a corrupção, a violência policial, o tráfico e outros problemas comuns à maioria dos bairros periféricos de maioria Negra, seja nos EUA, no Brasil ou em qualquer lugar.

A série também se destaca por abordar indiretamente as recentes tensões raciais que se intensificaram nos Estados Unidos, após a morte de vários jovens Negros pela polícia, principalmente Trayvor Martin, assassinado em 2012, na Flórida e Michael Brown, morto em 2014, em Ferguson (motivo pelo qual Luke usa um capuz a maior parte do tempo, fato declarado pelo próprio Mike Colter) além do movimento Black Lives Matter ("Vidas Negras Importam").

A trilha sonora é um dos pontos mais altos da série, com muito Soul, Jazz, R&B e Hip-Hop, a exemplo de Nina Simone, Wu Tang Clan (com o prórpio Method Man fazendo participação especial em Bulletproof  Love, rap exclusivo pra série), Charles Bradley, The Delfonics, The Stylics e muitos outros.
Luke Cage foi uma das séries mais emocionantes e representativas que já vi. É muito bom saber que a geração atual pode se ver melhor representada, pode ter referências, alguém em quem se inspirar e que se pareça com ela, mesmo que o cenário atual não pareça favorável. 

"Toda essa gente falando mal do Luke Cage... A maioria dessa gente usa malha! Quem pensaria que um Negro de capuz poderia ser um herói?"

Plain Gold Ring (Nina Simone)


Bulletproof Love (Method Man)



terça-feira, 4 de outubro de 2016

Sugestão de Leitura: Mulheres, Raça e Classe - Angela Davis



Angela Davis é filósofa, professora emérita do departamento de estudos feministas da Universidade da Califórnia e um dos maiores ícones na luta pelo feminismo Negro, contra o racismo, o machismo, o sexismo e a exploração capitalista. 
Foi colaboradora dos Panteras Negras e membro do Partido Comunista dos Estados Unidos, e acabou presa por isso, durante a década de 1970. Ainda foi duas vezes candidata a vice-presidente dos EUA. Seu livro "Mulheres, Raça e Classe" é uma de suas principais obras, acabou de ser publicado no Brasil e, como o próprio título sugere, aborda, de maneira interseccional, a perspectiva da mulher Negra na luta antirracista e contra as diversas formas de violência, um protagonismo que não é tão frequente na bibliografia clássica sobre o assunto. Uma leitura mais que obrigatória e das que eu mais precisava, justamente por falar de um lugar ao qual não tenho tanta propriedade.

Informações:
Título: Mulheres, Raça e Classe
Autora: Angela Davis
Editora: Boitempo
Edição:1ª
Ano de publicação no Brasil: 2016
Número de páginas: 248

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Serena Williams sobre a violência racial nos EUA: "Não ficarei em silêncio!"


Em seu Facebook, a tenista heptacampeã de Wimbledon, Serena Williams, se manifestou sobre a violência policial contra Negros nos Estados Unidos, após relatar uma experiência cotidiana vivida com seu sobrinho, para demonstrar que, mesmo que uma pessoa Negra seja rica ou famosa, isso não a isenta de sentir medo, indignação ou preocupação com a escalada da violência racial no seu país. 

Tais fatos estão se repetindo com uma frequência assustadora e gerando protestos de esportistas e personalidades Negras, como o jogador de futebol americano Colin Kaepernick (Veja Aqui).

Na ocorrência mais recente, Keith Lamont Scott, Negro de 43 anos, foi assassinado pela polícia na cidade de Charlotte, Carolina do Norte, por, supostamente, ter se recusado a largar uma pistola, na terça passada (20/09). Segundo testemunhas, contudo, Scott segurava um livro.

É lamentável que essa tensão racial ainda exista no século XXI. Tão lamentável quanto a apatia dos esportistas e personalidades Negras brasileiras, que raramente se manifestam sobre a questão no Brasil, tão explícita quanto nos Estados Unidos, e quando fazem algum comentário, nunca têm a mesma veemência.
Segue abaixo, na íntegra, o texto publicado por Serena Williams:

Hoje pedi ao meu sobrinho de 18 anos (para ser clara, ele é negro) para me levar para as reuniões, para que eu pudesse trabalhar no meu celular #safteyfirst (Segurança em primeiro lugar). No caminho, eu vi a polícia na beira da estrada. Eu olhei rapidamente para verificar se ele estava obedecendo o limite de velocidade. Então eu lembrei daquele vídeo horrível da mulher no carro, quando um policial atirou no seu namorado. Tudo isso passou pela minha cabeça em questão de segundos. Eu até me arrependi não estar dirigindo. Eu nunca me perdoaria se algo acontecesse com meu sobrinho. Por que eu tenho que pensar sobre isso em 2016? Nós [os negros] não passamos por coisas o suficiente, abrimos tantas portas, impactamos bilhões de vidas? Mas eu percebi que devemos seguir em frente - porque não é o quão longe nós chegamos, mas quão longe podemos ir. Eu, então, me perguntei: "eu dei minha opinião"? Eu tive que olhar para mim mesma. E o meu sobrinho? E se eu tivesse um filho? E sobre as minhas filhas? Como o Dr. Martin Luther King disse: "chega uma hora em que o silêncio é traição". 
Eu não vou ficar em silêncio,
Serena. 

Fonte: Perfil oficial de Serena Williams no Facebook.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Camisa de jogador de futebol americano se torna a mais vendida após protesto durante hino nacional


Colin Kaepernick e Steve King, em seu protesto contra o massacre sistemático da população Negra nos EUA.

Pequenos gestos são capazes de gerar grandes repercussões. Colin Kaepernick se tornou notícia no mundo inteiro, após seus protestos antes do hino dos EUA se espalharem por outros jogadores e ligas profissionais de esportes de seu país. Como era de se esperar, há reações de setores conservadores (muitos, claramente racistas) e retaliações de alguns patrocinadores a vários atletas. Não é surpresa. Sempre foi assim. Qualquer reação Negra ao racismo é vista como "racismo ao contrário" (essa merda nem existe!). O bom é que, por outro lado, o fato de a venda de suas camisas dispararem significa que Kaepernick não está sozinho. Nenhum de nós jamais estará.

Por Amy Tennery
NOVA YORK (Reuters) - As camisas do jogador Colin Kaepernick foram as mais vendidas nesta terça-feira no site oficial da NFL, liga norte-americana de futebol americano, após ele protestar contra injustiças raciais e brutalidade policial nos Estados Unidos.
Kaepernick, quarterback do San Francisco 49ers, se negou a ficar em pé durante o hino nacional antes de jogo da pré-temporada em 26 de agosto e em um jogo na semana passada, gerando irritação e apoio de jogadores da NFL e fãs pelo país.
Em uma lista de todas as camisas disponíveis na NFLShop.com, a de Kaepernick era a primeira na área de "Mais Vendidas", superando as de jogadores novatos de alto perfil, como Carson Wentz, do Philadelphia Eagles, e Ezekiel Elliott, do Dallas Cowboys.
As vendas de camisas de Kaepernick aumentaram desde que ele iniciou seu protesto, de acordo com um relato da ESPN no fim de semana, que citava "uma fonte com conhecimento de números de vendas".
Kaepernick é o quarterback número dois dos 49ers, atrás de Blaine Gabbert, que foi selecionado para o elenco inicial na partida contra o Los Angeles Rams na quarta-feira.
Desde o início da manifestação, muitos torcedores disseram nas redes sociais que queriam comprar a camisa como sinal de solidariedade.
"Nunca assisti uma partida de futebol americano, mas acabei de comprar a camisa de Colin Kaepernick e irei usar com orgulho", disse na sexta-feira um usuário chamado Sean no Twiter.
"Preciso de uma camisa de Colin Kaepernick o mais rápido possível", tuitou Oliver Ellison na terça-feira. "(Ela) é icônica agora".
Fontes: Reuters/ UOL Esportes

“Eu não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor. Para mim, isso é mais importante que futebol e seria egoísta da minha parte virar a cara. Há corpos na rua enquanto os responsáveis recebem licença remunerada e ficam impunes por assassinatos.”

(Colin Kaepernick, quarterback do San Francisco 49ers)

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O Pan-Africanismo

Bandeira Pan-Africana


O Pan-Africanismo é uma ideologia que defende a união dos povos de todos os países do continente africano, no combate ao preconceito racial, à pobreza, à instabilidade e aos demais problemas sociais, como uma alternativa para tentar resolvê-los. 

Uma das propostas seria o remanejamento étnico, promovendo a união de grupos étnicos aliados, que foram separados pelo colonizador europeu, além do restabelecimento de práticas religiosas ancestrais e dos idiomas tradicionais, traços culturais que foram proibidos ou desencorajados durante a colonização.

Na realidade, o Pan-africanismo é um movimento de caráter social, filosófico e político, que visa promover a defesa dos direitos do povo africano, constituindo um único Estado soberano para africanos que vivem ou não na África.


A teoria pan-africanista foi desenvolvida principalmente pelos indivíduos na diáspora americana, descendentes de africanos escravizados e pessoas nascidas na África a partir de meados do século XX, como William Edward Burghardt DuBois e Marcus Mosiah Garvey, entre outros, e posteriormente levados para a arena política por africanos como Kwame Nkurumah. No Brasil, foi divulgada amplamente por Abdias do Nascimento.

Normalmente, se consideram Henry Sylvester-Williams e o Dr. William Edward Burghardt Du Bois como os pais da Pan-Africanismo. No entanto, este movimento social conta com várias vertentes, que têm uma história que remonta ao início do século XIX.  O Pan-Africanismo tem influenciado a África, a ponto de alterar radicalmente a sua paisagem política e ser decisiva para a independência dos países africanos. Ainda assim, o movimento tem conseguido dois dos seus principais objetivos: a unidade espiritual e política da África, sob o pretexto de um Estado único, e a capacidade de criar condições de prosperidade para todos os africanos.
A bandeira da Etiópia


Duas diferentes combinações de três cores são referenciadas como as Cores Pan-Africanas: verdedourado e vermelho, primeiramente usadas na bandeira da Etiópia, o único país que resistiu à colonização europeia, e o vermelhopreto verde, adotadas pela organização internacional sediada nos Estados Unidos, AUPN (do inglês, Associação Universal Para o Progresso Negro, fundada por Marcus Garvey, em 1 de agosto de 1914, na Jamaica). Como tal, são usadas em bandeiras e outros emblemas para representar o Pan-Africanismo, a identidade africana, ou os Negros, enquanto raça, como símbolo de orgulho, respeito e identificação.