quarta-feira, 18 de julho de 2018

Nelson Mandela, 100 anos!


Em 18 de julho de 1918, nascia Rolihlahla "Nelson" Mandela, um dos maiores ícones mundiais do século XX e o maior da África do Sul.
Vejo o que as pessoas (brancas, principalmente) falam sobre ele, como se fosse tão pacifista quanto Martin Luther King e isso não é bem verdade. Mandela foi preso e condenado como "terrorista" pelo governo racista sul-africano, justamente por se levantar contra as injustiças e contra o Apartheid, mesmo que precisasse usar a força.

Fico imaginando se essa visão do "Mandela Paz e Amor" não seria uma estratégia pra diluir sua verdadeira mensagem, que é a de não permitir que o mundo permaneça injusto sem lutar. Lógico, com a idade e a experiência, os discursos podem ter mudado, mas as convicções, não. O governo racista sul-africano demorou a acabar com o Apartheid, mas teria demorado muito mais tempo, se Nelson e Winnie Mandela, Walter Sisulu, Ahmed Kathrada e muitos outros não tivessem resistido com ações, paralelamente às palavras:

A lição que aprendi foi que, no final, nós não tínhamos alternativa alguma senão a resistência armada e violenta. Repetidamente, havíamos utilizado todas as armas de não violência em nosso arsenal - discursos, delegações, ameaças, marchas, greves, ficar em casa, prisões voluntárias - tudo em vão, pois tudo o que fazíamos era respondido com mão de ferro. um guerreiro pela liberdade aprende da maneira mais difícil que é o opressor que define a natureza da luta, e ao oprimido, frequentemente, não se deixa recurso algum senão utilizar métodos que espelham aquele do opressor. Em certo momento, só é possível lutar contra o fogo usando o fogo.

(Autobiografia, p. 206)


O que fica de lição, principalmente em tempos nefastos de xenofobia, racismo institucional, discursos de ódio e genocídio da população Negra, é que devemos buscar a paz, mas devemos ser mais incisivos. Não tô falando necessariamente de "tocar fogo" em tudo (também não tô excluindo essa possibilidade), mas precisamos buscar ações mais concretas pra combater o racismo para além de manifestações públicas nas redes sociais e levantamento de cartazes. Sou professor e, apesar do descaso do governo, ainda acredito que a educação é uma das maiores armas, a longo prazo, para um processo de conscientização e engajamento na luta contra o racismo. Precisamos conhecer a nossa história, saber quem somos!
Na mesma página, Mandela diz:

A educação é o grande motor do desenvolvimento pessoal. É através da educação que a filha de um camponês pode se tornar uma médica, que o filho de um mineiro pode se tornar o chefe da mina, que o filho de trabalhadores rurais pode se tornar o presidente de uma grande nação. É o que nós fazemos com o que dispomos, e não com o que nos é dado, que diferencia uma pessoa da outra.

No centenário de Nelson Mandela, temos o dever de agradecer por tudo que foi feito e a missão de manter o seu sonho de paz, justiça e liberdade entre os povos e raças vivo. Que os seus ideais continuem nos guiando!

Madiba Vive!


terça-feira, 17 de julho de 2018

Mbappé doou todos os prêmios recebidos na Copa da Rússia



A França contou com grandes jogadores na sua campanha do bicampeonato da Copa do Mundo, mas nenhum deles foi tão gigante quanto Kylian Mbappé. No campo, o jovem foi um dos pilares do ataque francês e foi eleito o melhor jogador jovem do torneio, fora dos gramados, foi o melhor jogador do mundial.

O motivo do destaque fora das quatro linhas é por conta de suas ações filantrópicas. Mbappé se associou em 2017 à instituição de caridade francesa Premiers de Cordée, que ministra aulas de esportes para crianças com deficiências, de acordo com o jornal francês L'Equipe.

Segundo a imprensa europeia, o jogador recebeu cerca de 19 mil doláres por partida (cerca de R$77 mil), mais um bônus de 310 mil doláres (R$1,3 milhão) pelo título da França e doou toda quantia para a instituição, totalizando um valor de aproximadamente R$1,7 milhão.

- Kylian é uma pessoa maravilhosa. Quando a agenda dele está vaga, ele nos visita com um grande prazer. Ele tem uma ótima relação com as crianças. Sempre acha as melhores palavras para encorajá-las - disse o dirertor geral da 
Premiers de Cordée, Sebastian Ruffin, ao diário francês Le Parisien.

De acordo com o L'Equipe, a ação de Mbappé parece ter inspirado uma série de doações feitas pelos próprios jogadores da seleção francesa, que também repassaram seus ganhos em premiações da Copa para uma viagem educacional de 25 crianças do colégio Jean-Renoir para a Rússia.



Fonte: Lance!

domingo, 15 de julho de 2018

A ascensão meteórica de N'Golo Kanté


Neste domingo, a França  sagrou-se bicampeã mundial na Arena Lujniki, em Moscou, ao vencer a Croácia por 4 a 2. Gols de Mario Mandzukic (contra), Antoine Griezman, Paul Pogba e Kylian Mbappé para a França; e Mandzukic (desta vez, a favor) e Ivan Perisic pela Croácia.

Um dos grandes personagens do título francês atende pelo nome de N'Golo Kanté. O volante de 27 anos e apenas 1,68m de altura é um dos quase 80% dos jogadores do elenco que são filhos de imigrantes africanos, justamente no momento em que as discussões em torno da imigração estão latentes na Europa, sobretudo em países como a França, Alemanha e Inglaterra. É notório que a França não conseguiria vencer a Copa do Mundo sem a presença dos jogadores de ascendência africana, apesar de tantas campanhas xenofóbicas e racistas pelo país. Sobre a relação conturbada da França com seus jogadores de dupla cidadania, uma boa sugestão é o filme Les Bleus - Uma outra história da França.

Filho de imigrantes do Mali, África Setentrional, Kanté nasceu em Paris. Na única vez em que a França havia vencido uma Copa, em 1998, o menino de sete anos catava lixo nas ruas da cidade para ajudar a família. Aos 11, após o falecimento do seu pai, Kanté tentou iniciar sua carreira no futebol, mas não deu muito certo e ele priorizou o estudos, se formando em contabilidade. Em 2010, integrou a equipe B do Boulogne, promovido à equipe principal durante a temporada 2012/2013.

A partir daí, a carreira de N'Golo foi só ladeira acima. Após jogar pelo Boulogne a terceira divisão francesa e conquistar o acesso, foi contratado pelo Caen para jogar a Ligue 2, fazendo parte da seleção do campeonato no fim da temporada e chegando, finalmente à Ligue 1. Em seu primeiro jogo na primeira divisão, marcou seu primeiro gol pelo Caen contra o Évian.

Kanté foi eleito o melhor jogador da temporada 2015/2016 da Premier League, no incrível título do Leicester City.


Em 2015, Kanté se transferiu para o Leicester City, da Inglaterra, e participou da histórica campanha do inédito título da Premier League, sendo eleito o melhor jogador do campeonato inglês daquela temporada. Sua brilhante campanha atraiu a atenção de várias equipes, e ele acabou se transferindo para o Chelsea em 2016. Foi peça-chave no título dos Blues na temporada 2016/2017.
Suas brilhantes atuações o levaram à seleção francesa em 2016, onde estreou contra a Romênia na Eurocopa realizada em seu país. Integrou a equipe que viria a ser derrotada por Portugal na final, mas que também seria a base da seleção campeã da Copa do Mundo de 2018.

No espaço de apenas cinco anos, driblando a desconfiança por causa de sua baixa estatura, o racismo, a pobreza e todas as dificuldades proporcionadas pela imigração na Europa, N'Golo Kanté saiu em uma série de acessos e títulos, da terceira divisão da França ao posto mais importante do futebol mundial. Nesta janela de transferências, é um dos nomes mais badalados, com propostas milionárias do Barcelona, Paris Saint-German e Real Madrid, além do próprio Chelsea. O filho de malineses, que catava lixo há 20 anos atrás, hoje é um dos jogadores mais importantes e valorizados do mundo. 

sábado, 23 de junho de 2018

A história de Romelu Lukaku, contada por ele mesmo


Com o objetivo de dar aos jogadores espaço para contarem detalhes íntimos de sua história pessoal e profissional, o The Players Tribune ficou conhecido no mundo todo. Hoje você confere a história impressionante e comovente de Romelu Lukaku.
Eu lembro exatamente do momento em que estávamos sem dinheiro. Eu consigo visualizar o rosto da minha mãe olhando para a geladeira.
Eu tinha 6 anos, quando cheguei em casa para almoçar durante o intervalo na escola. Minha mãe tinha a mesma coisa no cardápio todo dia: pão e leite. Quando você é criança, você nem pensa nisso. Mas eu acho que é o que poderíamos pagar.
Então, em um determinado dia, eu cheguei em casa, entrei na cozinha e vi minha mãe com uma caixa de leite perto da geladeira, como normalmente. Mas, dessa vez, ela estava misturando algo com isso. Eu não entendi o que estava acontecendo.
Então, ela trouxe meu almoço e sorriu para mim como se tudo estivesse bem, mas eu percebi logo que o que estava acontecendo.Ela estava misturando água com leite. Nós não tínhamos dinheiro suficiente para o leite durar a semana toda.
Nós não tínhamos nada. Não éramos só pobres, não tínhamos nada.
Meu pai foi um jogador profissional de futebol, mas ele estava no fim da carreira, e o dinheiro já tinha acabado. A primeira coisa a “ir embora” foi a TV a cabo. Acabou o futebol, acabou o “Match of the day” (programa sobre futebol). Sem sinal.
Então, eu chegaria em casa à noite e as luzes estavam apagadas. Sem eletricidade por duas ou três semanas às vezes.
Aí eu queria tomar um banho, e não tinha água quente. Minha mãe pegava uma chaleira com água, aquecia no fogão e eu ficava com uma caneca para derrubar a água quente em mim e poder tomar banho.
Algumas vezes, a minha mãe precisava pagar fiado o pão da padaria da rua. Os padeiros conheciam eu e meu irmão, então eles deixavam pegar um pouco do pão na segunda-feira e pagar na sexta-feira.
EU SABIA QUE ESTÁVAMOS COM DIFICULDADES. MAS QUANDO ELA ESTAVA MISTURANDO ÁGUA COM LEITE, EU PERCEBI QUE JÁ ERA, ENTENDE O QUE EU DIGO? ESSA ERA A NOSSA VIDA.
Eu não disse uma palavra. Eu não queria vê-la estressada. Eu só comi meu almoço. Mas eu juro por Deus, que fiz uma promessa a mim mesmo. Foi como se alguém tivesse estalado os dedos e me acordasse. Eu sabia exatamente o que tinha que fazer e o que ia fazer.
Eu não poderia ver minha mãe vivendo assim. Não, não, não. Não poderia ver isso.
As pessoas no futebol adoram falar sobre “força mental”. Bem, eu sou o cara mais durão que você vai conhecer. Porque eu lembro de sentar no escuro com meu irmão e minha mãe fazendo a nossa prece e pensando, acreditando, sabendo… que ia acontecer.
Eu guardei minha promessa só para mim por algum tempo. Mas alguns dias eu chegaria em casa da escola e via minha mãe chorando. Então, finalmente, um dia, eu contei a ela.
“MÃE, AS COISAS VÃO MUDAR. VOCÊ VAI VER. EU VOU JOGAR FUTEBOL PELO ANDERLECHT, E VAI ACONTECER LOGO. EU E MEU IRMÃO VAMOS NOS DAR BEM. VOCÊ NÃO VAI PRECISAR SE PREOCUPAR”.
Eu tinha seis anos. Perguntei ao meu pai “Quando você pode começar a jogar futebol profissionalmente?”. Ele disse: “16 anos”. Eu disse: “Ok, 16 anos então, isso vai acontecer, ponto."
Deixa eu te dizer uma coisa – todo jogo que eu jogava era uma final. Quando eu jogava no parque era uma final. Quando eu jogava no intervalo do jardim de infância, era uma final. Eu estou falando isso muito sério.
Eu costumava arrancar o couro da bola toda vez que chutava. Força total. A gente não apertava R1, não, cara. Eu não tinha o novo FIFA. Não tinha Playstation. Eu não estava jogando por jogar. Eu estava tentando acabar com você.
Quando eu comecei a ficar alto, alguns professores e pais começavam a me irritar. Nunca vou esquecer da primeira vez que ouvi adultos falando para mim, “Ei, quantos anos você tem? Em que ano você nasceu?”.
Eu falava: “Sério? Você está falando sério?”.
Quando eu tinha 11 anos, estava jogando na base do Lièrse, e um dos pais do time adversário literalmente tentou me impedir de entrar no campo. Ele estava “Quantos anos esse garoto tem? Cadê a identidade dele? De onde ele é?”.
Eu pensei “De onde eu sou? Quê? Eu sou da Antuérpia. Eu sou da Bélgica”.
Meu pai não estava lá porque ele não tinha carro para me levar aos jogos fora de casa.
Eu estava sozinho e tinha que me defender sozinho. Eu fui, peguei minha identidade na mochila e mostrei a todos os pais presentes. Ele passavam meu documento um a um para inspecionar e lembro o sangue subindo à cabeça deles. Aí eu pensava:
“AH, EU VOU ACABAR COM O SEU FILHO AINDA MAIS AGORA. EU JÁ IA ACABAR COM ELE, MAS VOU ACABAR COM ELE AINDA MAIS. VOCÊ VAI LEVAR SEU FILHO CHORANDO PARA CASA”.
O maior arrependimento
Eu queria ser o melhor jogador da história da Bélgica. Aquele era meu objetivo. Não um jogador bom. Não um ótimo jogador. O melhor. Eu jogava com tanta raiva por causa de tanta coisa. Pelos ratos que entravam no nosso apartamento, porque eu não poderia assistir a Champions League, por causa de como os pais dos outros garotos me olhavam.
Eu tinha uma missão. Quando eu tinha 12 anos, marquei 76 gols em 34 jogos.
Eu marquei todos usando as chuteiras do meu pai. Quando nossos pés eram do mesmo tamanho, passamos a dividir. Um dia eu fui conversar com meu avô, o pai da minha mãe. Ele era uma das pessoas mais importantes da minha vida.
Ele era a minha relação com o Congo, país que meus pais nasceram. Então, um dia, eu liguei para ele e disse “Eu vou me dar bem. Marquei 76 gols e vencemos o campeonato. Os grandes times estão de olho em mim”. E, como sempre, ele falava que queria ouvir sobre o meu futebol. Mas dessa vez foi estranho. Ele disse: “Sim, Rom, que ótimo, mas você pode me fazer um favor?”.
Eu disse: “Claro, o que é?”
Ele falou: “Pode cuidar da minha filha, por favor?”
Eu lembro de estar muito confuso, pensando “o que o vovô tá falando?”.Eu falei: “Minha mãe? Estamos bem, está tudo bem”.
Ele disse: “Não, me prometa. Você pode me prometer? Cuida da minha filha por mim, ok?”
Eu falei: “Ok, vô, pode deixar. Eu prometo”.
Cinco dias depois, ele faleceu.
Aí eu entendi o que ele quis dizer.
Eu fico muito triste quando penso nisso porque eu queria que vivesse mais quatro anos para me ver jogar no Anderlecht. Para ver que eu cumpri minha promessa, sabe? Ver que tudo ia ficar bem.
Eu disse para a minha mãe que ia conseguir isso aos 16 anos. Eu errei a previsão por 11 dias.
24 de maio de 2009. A final entre Anderlecht e Standard Liège. Foi o dia mais louco da minha vida. Mas temos que voltar um minuto porque no começo da temporada, eu mal estava jogando pelo sub-19 do time.
Ele estava sempre me colocando para jogar saindo do banco de reservas. Eu ficava pensando “Como vou conseguir assinar meu contrato profissional no meu aniversário de 16 anos se sou reserva do sub-19 do time?”
Então eu apostei com o técnico. Eu disse a ele “Eu te prometo uma coisa. Se você me colocar para jogar, vou marcar 25 gols até dezembro”. Ele riu. Ele literalmente riu de mim.
Eu disse a ele: “Então faremos uma aposta”
Ele respondeu: “Ok, se você não fizer 25 gols até dezembro, você volta ao banco”.
Eu respondi a ele: “Tudo bem, mas se eu vencer, você vai mandar limpar as minivans que levam os jogadores do treino”.
Ele disse: “Ok, estamos em acordo”.
Eu ainda disse: “Ah, tem mais uma coisa. Você vai fazer panquecas para o time todo dia”.
Ele falou: “Ok, tudo bem”.
Aquela foi a aposta mais burra que aquele cara já fez. Eu marquei 25 gols e ainda estávamos em novembro. Nós estávamos comendo panquecas antes do Natal, cara. Que isso vire uma lição. Você não pode brincar com um garoto que está com fome!
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Atualmente, Lukaku joga pelo Manchester United-ING
Romelu Lukaku lembra do seu primeiro gol
Eu assinei meu contrato profissional no dia do meu aniversário, 13 de maio. Fui direto comprar o novo Fifa e um pacote de TV paga.
Já era o final da temporada então eu estava tranquilo em casa. Mas o Campeonato Belga estava louco naquele ano porque Anderlecht e Standard Liège terminaram a competição com a mesma pontuação. Então, precisaram de dois jogos para definir o campeão.
No primeiro jogo, eu estava em campo vendo TV como um torcedor. Um dia antes da segunda partida, eu recebo uma ligação do técnico do time reserva.
“Alô?”
“Oi, Lukaku, o que você está fazendo?”
“Vou jogar bola no parque”.
“Não, não, não, arrume suas coisa. Agora mesmo”
“O que? O que eu fiz?”
“Não, não, não, você precisa vir ao estádio agora. O time principal precisa de você agora”.
“Cara… que?! Eu?!”
“É, você mesmo. Venha pra cá agora”
Eu simplesmente corri para o quarto do meu pai e estava como “Cara, vem para cá agora, você tem que vir”.
Ele disse: “O quê? Onde? Ir para que lugar?”
Eu disse: “ANDERLECHT, CARA”
Eu nunca vou esquecer, eu apareci no estádio e corri para o vestiário. O roupeiro me perguntou: “E aí, garoto, qual número você quer?”
Eu disse: “Me dá o número 10”.
O roupeiro disse: “Ok, garoto, que número você quer?”. Eu voltei a responder: “Me dá a 10”. Hahahaha Eu não sei, eu era muito novo para ficar assustado.
Ele disse: “Jogadores da base precisam escolher números acima de 30”.
Eu disse: “Ok, bem, 3 + 6 = 9. Esse é um número legal, então me dá a 36”.
Naquela noite no hotel, os jogadores mais velhos me fizeram cantar uma música para eles no jantar. Eu não lembro qual escolhi. Minha cabeça estava girando.
Na manhã seguinte, meu amigo bateu na porta da minha casa para saber se eu queria jogar futebol com ele, e a minha mãe respondeu. “Ele saiu para jogar”.
“Jogar onde?”
Minha mãe respondeu: “A final”.
Nós saímos do ônibus para o estádio, e cada jogador entrava com uma roupa muito legal. Menos eu. Eu saí do ônibus com uma roupa horrível, e todas as câmeras de TV filmavam meu rosto.
O caminho até o vestiário era de 300 metros. Quando eu coloquei meu pé no vestiário, meu telefone começou a tocar sem parar. Todos me viram na TV. Eu tive 25 mensagens em 3 minutos. Meus amigos estavam loucos.
“Cara! VOCÊ ESTÁ NO JOGO?!””Lukaku, o que está acontecendo? Por que você está na TV?”
A única pessoa que eu respondi foi meu melhor amigo. Eu disse “Cara, eu não sei se vou jogar. Eu não sei o que está acontecendo. Mas fica ligado na TV”.
No minuto 63, o técnico me colocou no jogo. Eu entrei no gramado pela primeira vez como jogador profissional do Anderlecht aos 16 anos e 11 dias.
Nós perdemos a final aquele dia, mas eu estava no paraíso. Eu cumpri minha promessa com minha mãe e meu avô. Aquele foi o momento em que eu soube que tudo ia ficar bem.
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Lukaku atuando pelo Anderlecht, da Bélgica.
A temporada seguinte eu estava terminando o último ano do colégio e jogando a Europa League ao mesmo tempo. Eu levava uma mochila grande para a escola para poder pegar um voo à tarde. Nós vencemos o campeonato com folga, e eu terminei em segundo como o melhor jogador africano do ano. Aquilo foi…loucura.
Eu realmente esperava que tudo isso ia acontecer, mas talvez não tão rápido. De uma hora para outra, a mídia estava falando de mim e colocando todas essas expectativas sobre mim. Especialmente em relação à seleção belga. Não sei por qual razão, mas eu não estava jogando bem pela Bélgica. Não estava dando certo.
Mas, cara, vamos lá. Eu tinha 17! 18! 19!
Quando as coisas estavam caminhando bem, eu li as reportagens dos jornais e eles estavam me chamando de Romelu Lukaku, o atacante belga.
Quando as coisas não estavam bem, eles me chamavam de Romelu Lukaku, o atacante belga de origem congolesa.
Se você não gosta do jeito que eu jogo, tudo bem. Mas eu nasci na Bélgica. Eu cresci na Antuérpia, Liège e Bruxelas. Eu sonhei em jogar pelo Anderlecht. Eu sonhei em ser Vincent Kompany. Eu consigo começar uma frase em francês e terminar em holandês, e posso jogar umas palavras em espanhol ou português ou Lingala, dependendo do bairro onde eu estava.
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O atacante atuou pelo Chelsea, mas não foi muito aproveitado pelo português José Mourinho.
Eu sou belga.
Todos somos belgas. É isso que faz esse país legal, sabe?
Eu não sei porque algumas pessoas no meu país querem me ver fracassar. Eu não sei mesmo. Quando eu fui para o Chelsea eu não estava jogando e ouvia rirem de mim. Quando eu fui emprestado ao West Brom, eu ouvi rirem de mim.
Mas tudo bem. Aquelas pessoas não estavam comigo quando a minha família estava colocando água no meu cereal. Se você não estava comigo quando eu não tinha nada, então você não pode me entender.
Você sabe o que é engraçado? Eu perdi 10 anos de Champions League quando criança. Não podíamos pagar. Eu ia para a escola e as crianças falavam da final, e eu não tinha ideia do que tinha acontecido. Lembro que, em 2002, o Real Madrid enfrentou o Bayer Leverkusen, e todos estavam reagindo: “Nossa, aquele voleio! Meu deus, aquele voleio”
Eu tinha que fingir que estava tudo bem.
Duas semanas depois, estávamos na sala de computadores da escola, e um dos meus amigos baixou um vídeo da Internet, e eu finalmente pude ver o voleio de Zidane com a perna esquerda.
Naquele verão, eu fui até a casa dele para ver o Ronaldo Fenômeno jogar a final da Copa do Mundo. Tudo o que aconteceu antes no Mundial eu só tinha ouvido dos garotos e garotas da escola.
Hahaha, eu lembro que tinham grandes buracos nos meus tênis em 2002. Grandes buracos.
Doze anos depois, eu ESTAVA na Copa do Mundo.
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Lukaku marcou dois gols na partida de hoje contra a Tunísia pela Copa do Mundo da Rússia.
Agora vou jogar outra Copa do Mundo, e meu irmão Jordan Lukaku está comigo dessa vez. Dois garotos da mesma casa, da mesma situação adversa e que conseguiram superar.
Você quer saber? Eu vou lembrar de me divertir dessa vez. A vida é muito curta para estresse e drama. As pessoas podem dizer o que quiser sobre o nosso time e eu.
Cara, me escuta – quando éramos crianças, não podíamos ver Thierry Henry no programa Match of the Day. Agora estamos aprendendo com ele, que faz parte da comissão técnica da Bélgica.
Eu estou com uma lenda e ele está me ensinando a correr no espaço como ele mesmo fazia.
Ele pode ser o único cara do mundo que assiste mais futebol que eu. Nós falamos sobre tudo. Nós estamos juntos falando sobre a Segunda Divisão da Alemanha.
“Thierry, você viu o Fortuna Düsseldorf?”
“Claro, Rom, não seja bobo, eu vi sim”.
Essa é a coisa mais legal do mundo para mim.
Eu gostaria muito, muito mesmo, que meu avô pudesse testemunhar isso.
Não estou falando de jogar a Premier League. No Manchester United. Jogar a Champions League. A Copa do Mundo.
Não é isso que eu falo. Eu só gostaria que ele estivesse aqui para ver a vida que temos agora. Eu gostaria de ter mais um telefonema com ele e eu poderia dizer…
“VIU? EU TE DISSE. SUA FILHA ESTÁ BEM. NADA DE RATOS NO NOSSO APARTAMENTO. NADA DE DORMIR NO CHÃO. NADA DE PREOCUPAÇÃO. ESTAMOS BEM AGORA. ESTAMOS BEM…ELES NÃO PRECISAM CHECAR MEUS DOCUMENTOS AGORA. AGORA, ELES SABEM MEU NOME”.

Fontes: Premier League Brasil/ The Players Tribune 

Cissé, a exceção que confirma a regra


sábado, 16 de junho de 2018

Astro da Inglaterra, Dele Alli poderia ser príncipe na Nigéria



Filho de pai nigeriano e mãe inglesa, Dele Alli teve infância difícil e encontrou no futebol o seu refúgio.
Bamidele Jermaine Alli, 22, poderia poderia ser um príncipe da tribo Iorubá, a segunda maior etnia da Nigéria, mas ele renegou esse prestígio, se tornou Dele Alli e vai disputar a primeira Copa do Mundo com a camisa da Inglaterra.

Filho de pai nigeriano e mãe inglesa, o astro do Tottenham teve uma infância complicada. 
Nascido em Milton Keynes, na Inglaterra, se mudou aos nove anos com o pai, Kehinde, para a Nigéria e foi estudar na cidade de Lagos.

Empresário, Kehinde se mudou para os Estados Unidos dois anos depois e, aos 11 anos, Dele retornou à Inglaterra para morar com a mãe. Denise, no entanto, sofria de alcoolismo e o garoto encontrou seu refúgio no futebol. 

Os primeiros passos foram no MK Dons, time local que defendeu entre 2011 e 2015. Como tinha de ir de transporte público aos treinos, decidiu morar na casa da família de um amigo de time.

Kehinde Alli, pai de Dele, pertence à linhagem real Iorubá.


Foi nesse momento que a relação com sua família se desgastou por completo. Com o pai distante e a mãe com problemas de saúde, Dele se apoiou nas pessoas que cuidavam de sua carreira.
Não demorou muito para despontar como promessa inglesa. Em fevereiro de 2015, foi contratado pelo Tottenham por 5 milhões de libras (cerca de R$19,5 milhões, na cotação atual). Em novembro do mesmo ano, já estava na seleção principal da Inglaterra.

No ano seguinte, já com status de titular no clube inglês, o meia tomou uma decisão que chamou atenção. Sempre com o número 20, ele levava o nome Alli nas costas, porém, em uma entrevista coletiva, anunciou que passaria a usar apenas Dele. O sobrenome Alli, do pai, não o representava:

Eu queria um nome na minha camisa que representasse quem eu sou, e eu sinto que Alli não tem nenhuma conexão comigo. Esta não é uma decisão que tomei sem nenhuma reflexão e discussão com familiares que são próximos a mim.

O camisa 20 abriu mão do sobrenome "Alli" e passou a utilizar apenas o "Dele" nas costas (Foto: Getty Images)
O camisa 20 abriu mão do sobrenome "Alli" e passou a usar apenas "Dele".

Curiosamente, o discurso veio meses depois de uma entrevista do seu pai ao jornal Daily Star em junho de 2016, na qual afirmou que Dele Alli seria príncipe na Nigéria, se quisesse. O avô do jogador era um rei Iorubá:

Se Dele voltasse para a Nigéria agora, seria uma loucura. Ele teria recepção presidencial onde quer que fosse. Todo mundo assiste ele jogar e tem orgulho. Ele abre todas as portas pra ser um príncipe. Por ser quem é, ele pode conversar com nosso primeiro-ministro e o presidente, se ele quiser.

O ex-jogador John Fashanu, que vestiu a camisa da seleção inglesa e também pertence à etnia Iorubá reforçou:

A chance de Dele ser um príncipe na Nigéria é absolutamente enorme. Isso lhe daria muito respeito. Se ele voltasse a morar aqui (na Nigéria), talvez, um dia, ele pudesse ser o rei da tribo Iorubá.

Segundo relatos de sua mãe em entrevistas posteriores, ela e alguns familiares tentam entrar em contato constantemente com o jogador, que renega qualquer tipo de reaproximação. O pai, inclusive, foi flagrado nas arquibancadas do White Hart Lane, no início deste ano, para assistir ao filho atuar contra o Middlesbrough.

Se haverá alguma reconciliação nesse caso, só o tempo irá dizer. O certo é que Dele atingiu o nível máximo de um jogador de futebol e vai defender a Inglaterra em sua primeira Copa do Mundo, aos 22 anos. Sua estreia no Mundial da Rússia será na próxima segunda-feira contra a Tunísia, às 15h (horário de Brasília) pelo grupo G, e ele é uma das grandes esperanças da seleção para erguer novamente um troféu que não conquista desde 1966.

Fonte: Globo Esporte.com

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Falz - This is Nigeria


Nascido Folarin Falana, o rapper e ator nigeriano Falz, que também é advogado e filho do famoso advogado e ativista pelos direitos humanos Femi Falana, se notabiliza por emitir opiniões fortes e críticas sociais diversas, como à corrupção, à violência policial (que até ele mesmo já foi vítima recentemente, como pode ser visto neste LINK EM INGLÊS) e ao oportunismo das igrejas na Nigéria, entre outras coisas, o que não é tão comum no país, devido à repressão das forças governistas a este tipo de posicionamento.

Feitas as devidas apresentações, sugiro que veja o vídeo antes de continuar:

This is Nigeria é uma versão nigeriana para uma das músicas mais comentadas de 2018 até então, This is America, de Childish Gambino (veja mais sobre ela NESTE LINK). A versão africana é cheia de referências aos problemas sociais e políticos enfrentados pelo país nas últimas décadas, como se pode ver nos primeiros segundos do clipe. Falz segura um rádio, enquanto segue um discurso: Extremamente pobre. Os hospitais e  postos de saúde são pobres. Nós operamos um sistema capitalista predatório e neocolonial, que é fundado sobre a fraude e exploração e, portanto, você é obrigado a ser corrupto. Muitas ocorrências criminais são resolvidas em delegacias. 

Um homem vestindo um traje tradicional do povo Fula (ou Fulani), característico do norte e da costa atlântica da África, a exemplo da Guiné, Burkina Faso, Serra Leoa, além da própria Nigéria, entre outros países, sentado calmamente tocando seu goje (instrumento musical também típico da região) levanta-se abruptamente, substitui seu instrumento por um facão e executa um homem imobilizado.

Ao fundo, assim como na versão original, várias ações de violência e caos acontecem ao mesmo tempo, fato recorrente em todo o clipe, embora não com a mesma intensidade de This is America. Falz canta: Esta é a Nigéria/ Veja como estamos vivendo agora/ Veja o que estamos comendo agora/ Todo mundo é criminoso. O cantor se refere aos cerca de 42% da população nigeriana que vive em condições de pobreza extrema, aproximadamente 80 milhões de pessoas, segundo dados do World Poverty Clock, um instituto que contabiliza os índices de pobreza no mundo inteiro. No momento em que escrevo isso, 8% da população mundial encontra-se nesta situação (VEJA AQUI). Em sua versão, as pessoas que dançam ao seu redor não são estudantes, mas mulheres vestidas com trajes tradicionais muçulmanos, com expressões sérias, o que nos chama atenção ao sequestro e estupro de centenas de meninas e mulheres nigerianas pelo grupo extremista islâmico Boko Haram. 

No ato seguinte, vemos uma cena que nos é bastante familiar quando sintonizamos a TV em determinados canais, principalmente de madrugada. Uma simulação de "exorcismo" e promessas de milagres em breve. Claro que isso nunca vem de graça. Logo depois, temos homens tentando ligar máquinas, mas impedidos pelas constantes crises de energia elétrica no país. A letra diz que, mesmo trabalhando em múltiplos empregos, eles são chamados de preguiçosos. Este trecho se refere a uma entrevista do presidente nigeriano Muhammadu Buhari que repercutiu mal no país, ao afirmar que a maioria da população é jovem, mas não possui emprego nem escolaridade, atribuindo a pobreza da Nigéria a uma suposta apatia dos mais jovens, o que causou uma imediata reação nas mídias sociais, inclusive com a hashtag #LazyNigeriaYouth (a matéria sobre o caso pode ser lida, em inglês, AQUI).

Uma das cenas que abordam as desigualdades sociais do país é onde um homem com cordão de ouro, ladeado por duas mulheres, ostenta cédulas de dinheiro, mesmo em meio a todo o caos. Logo depois, a SARS (sigla para Special Anti-Robbery Squad, ou Esquadrão Especial Antirroubo) aborda um grupo de homens que conversava na rua. Depois de subornados, os policiais permitem que o grupo disperse, a exceção de um deles, que, supostamente, não quis ou não pôde pagar e, por isso, continua a ser espancado e executado. Um homem em trajes militares parece tentar fazer um pronunciamento buscando justificar o fato, mas não consegue prosseguir, talvez, por não achar justificativa plausível.

No fim, todos os atores presentes no clipe aparecem juntos, como se saíssem dos personagens, enquanto se ouve uma novo discurso: Mas o que acontece todos os dias é que o sistema tem permitido isso. Por exemplo, não há nenhuma lei que te autorize  a tomar o dinheiro das igrejas e investir em negócios e privatizá-la. Não! Isso acontece apenas na Nigéria! Onde você pode retirar dinheiro da igreja, dinheiro doado por pessoas pobres da congregação e criar uma universidade. Em seguida, os membros não podem entrar. É contra as leis de Deus! É contra a constituição!

Assim como o clipe original que lhe serviu de inspiração, This is Nigeria trata com acidez e boas doses de realidade os problemas enfrentados pelo país, que se tornou um lugar onde a corrupção e a violência estão impregnadas nos mais diversos setores da sociedade, com a agravante de que não é muito comum ver manifestações tão explícitas por lá. As situações enfrentadas pela Nigéria não são muito diferentes do que se passa nos Estados Unidos de This is America ou no Brasil. O colonialismo e o neocolonialismo, a escravidão e a exploração capitalista das grandes potências produziram desigualdades que nos aproximam ideologicamente e fazem com que a identificação ultrapasse as barreiras linguísticas e culturais.