segunda-feira, 30 de julho de 2012

NEGRA (Noémia de Souza)



Gentes estranhas com seus olhos cheios de outros mundos
quiseram captar seus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírio e feitiçaria...
Teus encantos profundos de África.

Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual.
Jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia...
e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.

Foste tudo, negra...
Em seus formais cantos rendilhados
menos tu.

E ainda bem.
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,

a glória comovida de te cantar toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE.


Noémia de Souza é uma poetisa moçambicana.

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