sexta-feira, 16 de março de 2018

'Tudo aponta para possível envolvimento de policiais', afirma coordenador criminal do MPF no Rio sobre Marielle

Vereadora foi morta a tiros quando saía de evento no Rio de Janeiro.
O coordenador criminal do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, o procurador José Maria Panoeiro, disse à BBC Brasil que uma análise inicial do assassinato da vereadora carioca do PSOL Marielle Franco aponta para o possível envolvimento de policiais ou agentes milicianos no crime.
Milícias são formadas principalmente por policiais militares, mas também por policiais civis, bombeiros e mesmo integrantes das Forças Armadas, explicou.
Marielle foi morta ao ter seu carro alvejado por pelo menos nove tiros, no Centro do Rio, após ela deixar um evento no bairro da Lapa. O motorista Anderson Pedro Gomes também acabou atingido e morreu, enquanto uma assessora que estava no carro teve ferimentos leves e sobreviveu.
Para Panoeiro, as informações de que o carro foi perseguido por outro, de onde partiram os disparos, e o fato de ela ter morrido com quatro tiros na cabeça tornam pouco prováveis as hipóteses de uma ação de traficantes ou assaltantes.
"A forma de organização do crime, o fato de a assessora não ter sido alvejada diretamente e o fato de o motorista ter levado um tiro por trás denota um certo grau de planejamento (da ação) que leva a colocar policiais como suspeitos da prática do delito", afirmou.
Ele disse, porém, que outras hipóteses também precisam ser investigadas.
"Dentro de uma análise inicial soa pouco provável que, por exemplo, traficantes de drogas de uma determinada comunidade saíssem armados para seguir o carro de uma vereadora que sai de um evento à noite na Lapa. Mas não deve ser descartada essa hipótese porque, quando você investiga, você não descarta nenhuma possibilidade", ressaltou.

Juíza Patrícia

Na sua avaliação, o caso lembra o da juíza Patrícia Acioli, morta em 2011 com 21 tiros na porta de sua casa em Niterói (RJ). Ela era titular da 4ª Vara Criminal de São Gonçalo e atuava em diversos processos em que os réus eram PMs do município, o que levou à prisão cerca de 60 policiais ligados a milícias e a grupos de extermínio. Onze policiais militares foram condenados pelo seu assassinato.
O procurador considera que "o ponto de partida" para as investigações do assassinato da vereadora é o fato de Marielle ter denunciado a violência policial. Segundo ele, sua atuação na defesa da igualdade de gênero e racial não levaria a uma execução. Quatro dias antes do assassinato, a vereadora denunciou supostos abusos de agentes do 41º Batalhão da Polícia Militar na favela de Acari, na zona norte do Rio.
"O que ela fez que é diferente e poderia incomodar as atuações expostas? É a questão da violência policial. Dos elementos que se apresentam, tudo aponta para possível envolvimento de policiais ou milicianos no crime", reforçou.
Protesto no RioDireito de imagemREUTERS
Image captionAssassinato gerou protestos em diversas cidades do país
Apesar de ver indícios do envolvimento de policiais, Panoeiro manifestou confiança de que a Polícia Civil e o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro tenham independência para investigar o caso, assim como foi feito no caso de Acioli. Embora a segurança do Rio de Janeiro esteja sob intervenção federal militar, as autoridades estaduais continuam responsáveis pelas investigações dos crimes.
"A gente não pode generalizar. Ainda que tenha policiais envolvidos, não significa que toda a polícia está envolvida", disse Panoeiro.
No início desta tarde, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, também manifestou essa confiança por meio de nota, mas ao mesmo tempo instaurou procedimento para eventual "federalização" do caso. Ou seja, a PGR agora vai acompanhar o desenrolar das investigações para avaliar a possibilidade de pedir ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) que retire o caso das autoridades estaduais e passe a apuração para o Ministério Público Federal.
Esse procedimento costuma ser adotado em crimes contra os direitos humanos e quando as autoridades estaduais falham no seu papel de investigação. Recentemente, por exemplo, foi federalizada a investigação da chacina de dez trabalhadores rurais em Pau D'Arco, no Pará, devido a envolvimento de policiais no crime.

Pedido do presidente

A nota da Procuradoria Geral da República (PGR) destaca que "a vereadora (Marielle) se notabilizou por ser defensora de direitos humanos e por dar voz às vítimas de violência no Estado". Informa ainda que "o Ministério Público está unido e mobilizado em torno do assunto" e que foram destacados três procuradores para se reunir com o procurador-geral de Justiça do Rio, Eduardo Gussen, e acompanhar o início das investigações. Entre eles está o secretário de Direitos Humanos da PGR, André de Carvalho Ramos.
Soldado no RioDireito de imagemAFP
Image captionMarielle Franco fez diversas críticas a ação de policiais e militares no Rio
Independentemente da federalização do caso, o presidente Michel Temer solicitou ao ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, que coloque a Polícia Federal à disposição para ajudar na investigação.
A BBC Brasil procurou a Secretaria de Segurança do Rio para comentar as suspeitas de envolvimento de policiais no assassinato da vereadora. Em nota, o órgão afirmou que "o Secretário de Estado de Segurança, Richard Nunes, determinou à Divisão de Homicídios ampla investigação sobre os assassinatos da vereadora Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes, além da tentativa de homicídio da assessora que a acompanhava".
Já a Polícia Civil disse em um comunicado que "a investigação está sob sigilo e não descarta nenhuma possibilidade sobre a motivação do crime".
O chefe de Polícia Civil, Rivaldo Barbosa, se reuniu, nesta manhã, com o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), e os delegados Fábio Cardoso e Giniton Lages, que estão assumindo as titularidades da Divisão de Homicídios e da Delegacia de Homicídios da Capital (DH/Capital), respectivamente.
Fonte: BBC Brasil

quarta-feira, 7 de março de 2018

Calendário Negro: Marcha de Luther King pelos direitos civis em Selma completa 53 anos

No dia 7 de março de 1965, que passou à história como Domingo Sangrento, uma marcha pacífica de cerca de 600 manifestantes dirigiu-se de Selma a Montgomery, capital do Alabama, para reivindicar pleno direito ao voto para a população negra do Estado. Bloqueados na altura da Ponte Edmund Pettus, sobre o Rio Alabama, os participantes foram violentamente atacados pela polícia. A repressão brutal, exibida ao vivo pela TV, comoveu a população e marcou o início do fim das chamadas Leis Jim Crow (Jim Corvo), que sustentavam a segregação racial nos Estados sulistas.
Duas semanas depois do incidente, uma nova marcha de 90 quilômetros partiu de Selma, tendo à frente o reverendo e futuro Nobel da Paz Martin Luther King. Em 6 de agosto daquele ano, o presidente Lyndon Johnson assinou a lei que estabelecia o direito de voto para todos.
– Hoje quero dizer à cidade de Selma, hoje quero dizer ao estado do Alabama, hoje quero dizer ao povo dos EUA e às nações do mundo que não vamos recuar. Estamos em movimento agora – disse Luther King na época.
Com a presença do presidente Barack Obama, da primeira-dama Michelle e das filhas do casal, Malia, 16 anos, e Sasha, 13, a cidade de SelmaAlabama, relembrou, em 2015, os 50 anos de um episódio chave na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos.
Selma marcou também, em 2008, o início da campanha presidencial de um até então pouco conhecido senador democrata por Illinois que se tornaria o primeiro presidente negro dos EUA. Obama foi criticado pela suposta falta de compromisso com questões raciais, como durante os distúrbios que abalaram Ferguson,  no Missouri, pela morte de um jovem afroamericano por um policial branco em agosto passado. A poucos dias da data histórica, o Departamento de Justiça divulgou um relatório que aponta o racismo cotidiano e o comportamento discriminatório da polícia em Ferguson, quase mil quilômetros ao norte de Selma. Para o secretário de Justiça, Eric Holder, primeiro negro a ocupar o cargo, as violações são graves e “a lista de mudanças necessárias, longa”.
Há 50 anos, o combate tinha relação com o próprio funcionamento da democracia. Nos anos 1960, dos 15 mil habitantes de Selma, apenas 300 tinham direito a voto. Retomando a ideia, Obama destacou na semana passada que o que aconteceu em Selma foi uma “experiência fundamentalmente americana, não apenas afroamericana”.

Selma: Uma Luta Pela Igualdade é a primeira grande produção de Hollywood a ter Martin Luther King Jr. como protagonista (vivido por David Oyelowo). Indicado ao Oscar 2015 de melhor filme e canção original, ganhou neste última, com Glory, interpretada por John Legend e Commom. Em seus discursos no palco da premiação, eles reiteraram os graves problemas que os EUA ainda enfrentam com o racismo.
Fonte: Portal Geledés


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

53 anos de morte de Malcolm X


Em 21 de fevereiro de 1965, Malcolm X foi covardemente assassinado, enquanto discursava no Harlem. Seu corpo se foi, mas suas ideias viverão para sempre!

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Wakanda Forever!


Não tenho a pretensão de fazer nenhuma análise aprofundada sobre o filme, até pra não estragar a experiência de quem ainda não o assistiu, e porque isso pode ser facilmente encontrado em qualquer site especializado. O que eu não poderia deixar de falar é sobre o impacto que o filme Pantera Negra vem causando, especialmente em mim e entre a comunidade Negra do Brasil.

Sou fã de HQ, a ponto de já ter sido assinante da Marvel e da DC, além de ter conseguido a proeza de assistir a TODOS os filmes destas editoras no cinema (grande parte deles, na estreia), desde X-Men - O Filme (2000) até hoje. A exceção da própria franquia X-Men, que tem debates profícuos sobre racismo e perseguição às minorias, mesmo de forma metafórica, Pantera Negra é o primeiro filme de super-herói a trazer estas discussões para um plano mais central. Por mais que existam dezenas de heróis Negros por aí, nenhum deles nunca foi protagonista (tá, tem o Blade de Wesley Snipes, a exceção que confirma a regra...) e JAMAIS uma produção da Marvel ou da DC contou com tantos personagens Negros ou tratou de um tema tão sério como o racismo com a seriedade que o tema merece.

A representatividade que tanto pedimos está se tornando cada vez maior, não porque as empresas nos amam ou estão mais conscientes, mas sim por perceberem que isso vende. Nós Negros e Negras também consumimos e somos uma fatia enorme desse bolo, e eles não podem mais ignorar isso. A maior prova disso é a mobilização mundial das pessoas Negras em torno desse filme. Várias celebridades dos EUA patrocinaram o acesso a centenas (ou milhares) de crianças de comunidades carentes, escolas etc., e aqui no Brasil, através das redes sociais, vários encontros foram marcados para "empretecer" as salas de cinema, de uma maneira como nunca se viu. A criança Negra agora tem um personagem famoso pra se inspirar nas brincadeiras com os amigos, alguém parecido com ela. 

Em Salvador, encontro marcado pelas redes sociais lotaram o cinema na estreia.


Já comentei NESTE LINK, em outra oportunidade, o quanto a minha infância e a dos meus amigos poderia ter sido melhor se existissem mais brinquedos que nos representassem, para além dos papéis de escravizados, subalternos ou criminosos, que a televisão e o cinema tentaram nos relegar por gerações consecutivas. Estamos alcançando esse protagonismo aos poucos, embora ainda tenhamos um longo caminho pela frente. 

O que torna Pantera Negra um filme tão especial? TUDO! O diretor Ryan Coogler, o elenco, que conta com Chadwick Boseman, Lupita Nyong'o, Forest Whitaker, Michael B. Jordan, Danai Gurira, Angela Basset, Letitia Wright, e muitxs outrxs... a trilha sonora, o roteiro excelente, com diálogos e referências fortes e emocionantes e até mesmo a construção do "vilão", bem diferente da visão maniqueísta de "bem" e "mal" que nos acostumamos a ver nos filmes de herói. Jordan convence e até nos desperta o sentimento de empatia, na pele de Erik Killmonger, quando expõe seus motivos.

O que pode parecer "bobagem" para as pessoas brancas, que nunca precisaram passar por isso, pra nós Negrxs, é uma questão fundamental de aceitação e autoestima. Conheço pessoas Negras muito bonitas que não se veem como tal ou que estão passando pelo processo de reconhecimento só depois de adultas. Precisamos aprender a nos amar desde cedo, porque o doentio sistema racista vai sempre tentar nos fazer pensar que nós é que temos algum problema. 
Wakanda Forever!

Claro que eu cheguei cedo, né? Não perderia essa estreia por nada!


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Raio Negro e Representatividade


Pouco a pouco, nossas demandas por representatividade Negra nas diversas mídias e no cinema vão sendo atendidas da maneira que deve ser: com protagonismo e histórias densas, escritas, dirigidas e com trilha sonora de profissionais Negros. Se já tivemos recentemente Luke Cage, Defensores, Star Wars e Star Trek Discovery, além da participação do Pantera Negra em Capitão América: Guerra Civil, 2018 já começa com Raio Negro em janeiro e o filme solo do Pantera Negra em fevereiro, um ótimo indício da mudança de direção dos ventos. Cabe ressaltar, entretanto, que ainda falta um maior protagonismo entre as heroínas Negras (hey, Fox/Marvel/Disney, cadê o filme da Tempestade??).

Na série que estreou ontem na Netflix e vai ter um episódio novo toda terça-feira, Raio Negro ("Black Lightning", no original) tem como alter ego o diretor do colégio Garfield High School, Jefferson Pierce (interpretado por Cress Williams), que se aposentou da carreira heroica nove anos atrás, e se dedica em tempo integral ao trabalho e à criação de suas duas filhas, Anissa e Jennifer Pierce. A primeira, bastante engajada em causas sociais, assim como o pai, e a outra ainda não demonstra o mesmo entusiasmo, mas as coisas têm potencial pra mudar nos próximos episódios. Seu retorno à ação acontece quando uma gangue, chamada de "Os 100", ameaça sua família e sua escola. Esta é outra característica marcante que difere Raio Negro das séries de heróis brancos convencionais: ele já é um herói estabelecido desde o primeiro episódio, mesmo estando aposentado, ao contrário das histórias em que o episódio piloto inteiro se dedica a contar a origem do herói, causada por algum acidente ou tragédia familiar. A origem dos seus poderes elétricos é mostrada num flashback rápido.


Sem dar muitos spoilers, já que a série estreou no Brasil há 24 horas atrás, é possível identificar vários elementos presentes em Luke Cage, por exemplo, e que são parte do cotidiano de várias comunidades Negras, tanto aqui quanto lá nos EUA: racismo, violência policial e um destaque para a trilha sonora repleta de Rap, Soul, R&B e outros elementos da musicalidade Negra. O próprio showrunner Salim Akil, que assina a série, revelou ao New York Times que alguns dos eventos retratados na série são autobiográficos: “Eu fui parado pela polícia, algumas vezes, mas minha raiva em ser parado quase me tirou a vida. Parei de tentar fingir. Em determinado momento, fechei meus olhos e pensei. Depois, me perguntei: ‘será que vale morrer por isso?’”
A cena em questão aparece logo nos primeiros minutos da série e é extremamente revoltante, até por saber que é daquele jeito que acontece. Eu mesmo já passei por isso também.

Assim como Luke Cage e Pantera Negra, Raio Negro não é um personagem qualquer. Ele mostra que o homem Negro precisa ser um herói e um exemplo para sua comunidade, com ou sem poderes; com ou sem máscaras. O inimigo nem sempre é um super-vilão com poderes cósmicos que quer dominar o mundo. Muitas vezes, ele acredita estar fazendo justiça e está mais perto do que se imagina.

Confira o trailer da série: 








sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A superpotência africana que chegou a conquistar o Egito, mas foi esquecida pela história

Construção aksumitaDireito de imagemGETTY IMAGES

Image captionReis aksumitas controlavam comércio no mar Vermelho

A grande pirâmide de Gizé, no Cairo, é considerada uma das sete maravilhas do mundo antigo.
Mas quem segue o curso do rio Nilo e viaja rumo ao sul, no território onde hoje é o Sudão, se depara com milhares de construções similares, que pertenceram ao reino de Kush (ou Cuche).
Kush foi uma superpotência africana e sua influência se estendeu até o atual Oriente Médio.
O reino existiu por centenas de anos e, no século VIII antes de Cristo, conquistou o Egito, também na África, governando-o por décadas.
E o que restou dessa civilização é impressionante.
  • Pirâmides no Sudão

Direito de imagemGETTY IMAGES
Image captionUnesco considera Jebel Barkal Patrimônio da Humanidade

Legado

Mais de 300 pirâmides continuam intactas, praticamente inalteradas desde que foram construídas, há cerca de 3 mil anos.
As mais suntuosas se encontram em Jebel Barkal, uma pequena montanha no Sudão do Norte que, junto com a cidade de Napata, são consideradas patrimônio da humanidade pela Unesco, o braço da ONU para educação, ciência e cultura.
No local, além das pirâmides, há tumbas, templos e câmaras funerárias completas, com pinturas e desenhos que a Unesco descreve como "obras-primas de um gênio criativo que mostram os valores artísticos, sociais, políticos e religiosos de uma comunidade de mais de 2 mil anos".
Pirâmides do Reino Kush, no SudãoDireito de imagemKUSH COMMUNICATIONS

Image captionMais de 300 pirâmides do reino Kush seguem praticamente intactas no Sudão

Os cuchitas eram africanos negros, em sua maioria agricultores, mas também artesãos e mercadores. Eles vendiam ouro, incenso, marfim, ébano, óleos, penas de avestruz e pele de leopardo.
Além de possuir minas de ouro e terras cultiváveis, o reino ocupava uma localização comercialmente estratégica, dado que de lá se transportavam mercadorias pelo rio Nilo e também por estradas que levavam ao mar Vermelho.
Suas riquezas chegaram a rivalizar com as dos faraós.
Mas até hoje o legado de Kush ainda não é amplamente conhecido, inclusive entre os africanos.

Pirâmides de MeroeDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionAfricanos desconhecem sua história, dizem especialistas

História da África

Um projeto com objetivo de resgatar o passado do continente nasceu no início da década de 1960.
A África se tornava independente da Europa e, em meio à onda nacionalista, muitos de seus jovens líderes assumiram o compromisso de não só descolonizar seus países, mas também suas histórias.
Tampouco havia interesse de historiadores ocidentais. Por causa da falta de registros escritos, muitos deles simplesmente abandonaram a tarefa de revisitar o passado do continente.
Assim, a Unesco ajudou estudiosos africanos a criar o projeto, recrutando 350 especialistas de diferentes áreas e de toda a África.
O resultado foi uma coletânea de oito volumes que abrangem desde a pré-história até a era moderna.
O oitavo livro foi concluído na década de 1990 e o nono já começou a ser preparado.

Pinturas das pirâmides de Jebel BarkalDireito de imagemKUSH COMMUNICATIONS
Image captionNo interior dos restos arqueológicos de Jebel Barkal, há pinturas consideradas "obras-primas" pela Unesco

Polêmica

Houve polêmica, contudo, em torno da decisão da Unesco de começar a coletânea com um exemplar sobre as origens da humanidade, expondo a teoria da evolução.
O volume provocou a ira de comunidades cristãs e muçulmanas, dado que alguns países da África acreditavam no criacionismo, doutrina que defende que os seres vivos surgiram do criador e não são, portanto, fruto da evolução.

Cristão ortodoxo da EtiópiaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionMonarcas do Reino de Aksum (ou Axum) foram os primeiros a abraçar o cristianismo

O paleontólogo queniano Richard Leakey, que contribuiu para a elaboração do primeiro volume, diz acreditar que o fato de o ser humano ter vindo da África continue sendo algo digno de reprovação por alguns ocidentais, que preferem negar essa origem.
Apesar disso, continua pouco divulgada a história do reino de Kush, onde as rainhas podiam governar por direito próprio.
O mesmo ocorre com o reino de Aksum, descrito como uma das quatro grandes civilizações do mundo antigo.
Os reis aksumitas controlavam o comércio do mar Vermelho desde seu território, situado na região onde estão atualmente a Eritreia e a Etiópia.
Além disso, foram os primeiros governantes da África a abraçar o cristianismo e em convertê-lo em religião oficial do reino.

Sítio arqueológico de MeroeDireito de imagemAFP
Image captionSítio arqueológico de Meroe, a 300 km ao norte da capital do Sudão, Cartum

'Escuridão'

Para especialistas, por força da influência colonialista, essa história é pouco conhecida até entre acadêmicos e professores africanos.
Por causa dela, não tiveram acesso a um relato integral e cronológico de sua história.

Escola da ÁfricaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionUnesco espera que história da África seja ensinada nas escolas por especialistas locais

Hugh Trevor-Roper, um dos mais destacados historiadores britânicos de todos os tempos, diz: "Talvez no futuro será possível ensinar algo sobre a história da África. Mas até o momento não há nenhuma ou quase nenhuma: só existe a história dos europeus na África".
"O resto é escuridão, assim como ocorre com a história pré-europeia e a pré-colombiana na América. Uma escuridão que não é sujeito para a história", completou.
A declaração é de 1965, mas continua atual.
Fonte: BBC Brasil

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Ano Novo, Tattoo Nova!


Abaixo do mapa da África, que eu já tinha, tatuei, na semana passada, os Oxês de Xangô e um raio, seu elemento. Faz tempo que ela estava nos meus planos e, quando eu soube que ele seria o Orixá regente de 2018 (junto com Exú), decidi que tinha chegado a hora.
Kawó-Kabièsilè!