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sexta-feira, 21 de abril de 2017

Como Ras Tafari, imperador etíope, passou a ser adorado na Jamaica

A coroação de Haile Selassie, em 1930, foi um evento global.

Quando se fala em rastafáris, provavelmente a primeira imagem que vem à cabeça de muitas pessoas é a do rei do reggae Bob Marley e seus rastas icônicos.
Mas além do famoso artista, há outro homem ainda mais importante no coração deste movimento - Ras Tafari. Esse foi o nome do último imperador da Etiópia, nascido em 23 de julho de 1892, mas ele adotou o nome real de Haile Selassie ao ser coroado.
Para os rastafáris, ele é Deus (Jah) encarnado, o messias redentor.
Mas como um imperador da Etiópia, cuja capital está situada a quase 13 mil quilômetros de Kingston, se tornou adorado na Jamaica?
O vínculo entre os dois, na verdade, está relacionado a um grupo de jamaicanos pobres que acreditavam que a coroação de Ras Tafari era o cumprimento de uma profecia e que ele era seu redentor, o messias: o "Rei dos reis, Senhor dos senhores".
Eles acreditavam que seriam libertados pelo imperador, que os tiraria da pobreza no Caribe e os levaria à África, a terra dos seus antepassados e um centro espiritual para os jamaicanos.

Quem era Ras Tafari?

Tafari era filho de um colaborador do imperador Menelik II, um dos governantes mais importantes da história da Etiópia, e casou-se com uma de suas filhas, Wayzaro Menen.
Desde a infância, sua inteligência chamou a atenção do imperador, que o ajudou a seguir carreira política. Quando a filha de Menelik II, a imperatriz Zauditu, morreu em 1930, seu protegido foi coroado imperador.
A coroação de Haile Selassie foi um evento esplendido e contou com a presença de autoridades do mundo todo.
Na época, o jornal The New York Times especulou que as celebrações haviam custado mais de US$ 3 milhões (R$ 9,5 milhões, em valores atuais). A revista Time dedicou a capa ao novo imperador, que logo se transformou em um fenômeno global.
Pouco depois da coroação, Selassie encomendou a primeira constituição escrita da Etiópia, que restringia em grande medida os poderes do parlamento.
Na prática, ele era o governo da Etiópia.
Segundo a constituição, a sucessão ao trono se restringia somente aos seus descendentes, e a pessoa do imperador era "sagrada, sua dignidade, inviolável e seu poder, indiscutível".
Mas, na Jamaica, Selassie estava se convertendo em algo mais do que um poderoso imperador.

A profecia de Marcus Garvey

O jamaicano Marcus Garvey nunca foi um rastafári, mas é considerado um profeta para os seguidores da religião.

"Olhem para a África, onde um rei negro vai ser coroado, anunciando que o dia da libertação estará próximo". Essa é a profecia que deu início a toda história, e foi feita por Marcus Garvey.
Ele era um ativista jamaicano que lutou pela mudança política e social em uma ilha que havia sido um centro importante durante o período da escravidão.
Depois da abolição, em 1833, a vida não melhorou muito para os antigos escravos, nem para seus filhos ou para as gerações seguintes.
Ainda não está claro se o "rei negro" a quem Garvey se referia era uma pessoa real, mas o mais provável é que se tratasse de uma figura simbólica.
Mas, quando as notícias da coroação de Haile Selassie em 1930 chegaram à Jamaica, muitos dos seguidores de Garvey fizeram uma associação que lhes parecia lógica: Ras Tafari era rei, e, portanto, o dia da libertação estaria próximo. Isso significava que eles deveriam se preparar para um êxodo para a África.
Apesar de Marcus Garvey nunca ter sido um rastafári, ele é considerado um dos profetas do movimento, e suas ideias formaram a filosofia rastafári.
"O 'garveyismo' se converteu em um tipo de nacionalismo militante que deu aos negros um sentido de identidade com o conjunto da África, numa época em que a independência estava em evidência", afirma Jabob Bauman, em uma publicação da Universidade do Estado de Washington, nos EUA.
Atualmente, as crenças dos rastafáris são muito diferentes.
Enquanto os primeiros seguidores da religião procuravam um retorno à África, declaravam que seu único deus era Haile Selassie e que a Etiópia era o verdadeiro Sião (sinônimo de terra de Israel, ou terra prometida), hoje muitos dão mais importância a um retorno "espiritual".
Segundo o autor da Enciclopédia Global das Religiões, Stephen Glazier, o movimento rastafári se converteu em parte a um estilo de vida, mais que uma religião, e as práticas também variam muito. Entre elas, se destacam o consumo ritual da maconha (ganja) e o reggae.

Visita à Jamaica

Selassie abandonou a Etiópia após a invasão de Mussolini e passou quase seis anos exilado.

 

Poucos anos após a coroação de Haile Selassie, a Etiópia se envolveu em uma guerra terrível. Em 1935, o líder italiano Benito Mussolini invadiu o país e Selassie partiu para o exílio.
Ele ficou cinco anos fora do país e somente em 1941 foi restituído como imperador, com a ajuda da Grã-Bretanha.
Em 21 de abril de 1966, ele finalmente visitou a Jamaica - e mesmo 36 anos depois de sua coroação, o entusiasmo dos rastafáris seguia intacto, com uma nova geração de adeptos que cultivavam a ideia de um êxodo para a o continente africano.
Selassie foi tomado pela recepção eufórica, e não fez nada para dispersar crenças sobre sua suposta condição divina. Garvey já estava morto, e suas críticas a Selassie por deixar o país em tempos de guerra já haviam sido esquecidas na Jamaica.
Mas no resto do mundo o julgamento sobre ele não foi unânime - embora Selassie quisesse projetar uma imagem de um imperador progressista, ele também enfrentou acusações de ser um ditador ganancioso.
Entre a multidão que apareceu para honrar e receber seu "Redentor", estava a esposa de um músico jamaicano de 21 anos, que tinha acabado de formar uma banda chamada The Wailers.
Seu nome era Robert Nesta Marley.

O rasta mais influente


Capa do disco Catch a Fire, de 1973.

Bob Marley foi o rastafári mais influente da história.
Ele nunca se classificou como profeta, embora muitas suas canções fossem consideradas com um caráter profético, e também nunca foi um líder, embora os seguidores o tratassem como tal.
Dois dos discos mais importantes da carreira de Marley - Catch a Fire, de 1973, e Natty Dread, de 1975, foram sucesso de vendas e estavam cheios de símbolos e motivos do rastafarianismo.
Na época do lançamento de Rastaman Vibration, em 1976, havia rastafáris em quase todas as cidades britânicas e em muitas partes dos Estados Unidos.
Jovens negros usavam o cabelo com os mesmos dreadlocks de Marley e vestiam roupas com as cores da bandeira etíope: verde, amarelo e vermelho.
Enquanto seus pais eram na maioria cristãos, jovens negros em cidades como Londres começaram a ser atraídos por uma teologia diferente, que incorporava a crítica política.

'Mentiras de Babilônia'


Selassie foi uma figura controversa: era venerado, mas também criticado por ganância

Enquanto isso, as coisas se complicavam para Selassie na Etiópia. Em 1973, uma forte crise de fome matou cerca de 200 mil etíopes.
Um ano depois, um grupo de militares do Exército com uma agenda marxista chamado Derg destronou o imperador após um golpe militar. Ele morreu em 1975, doente e encarcerado.
Sua morte foi descrita por seus seguidores como uma "desaparição", já que eles se negavam a acreditar que Selassie havia morrido.
E quando se falava sobre ele, a comunidade rastafári usava frequentemente a frase "mentiras de Babilônia". Muitos acreditavam que a estrutura dominada por brancos - chamada por eles de "Babilônia", havia espalhado uma mentira para tentar debilitar o crescente movimento rastafári.
Outros simplesmente rechaçaram a notícia afirmando que Jah, o nome rastafári para Deus, havia apenas ocupado temporariamente o corpo de Selassie. A morte "corporal" do imperador era tida como um sinal de que Jah não era apenas um ser humano, mas também um ente espiritual.
Uma terceira interpretação - e a mais aceita entre os rastafáris - se refere ao conceitos sobre a unidade essencial de toda a humanidade. Segundo esse princípio, ainda que habitemos corpos distintos, todos estamos unidos espiritualmente.
Pode ser que Haile Selassie já tivesse partido, mas vê-lo como um único deus é uma interpretação errônea do significado do rastafári: seu espírito está em todos nós e não pode ser extinto.
Segundo eles, desde que nascemos, somos todos corpos efêmeros, mas nossas almas seguem vivendo.
Fonte: BBC Brasil

terça-feira, 6 de setembro de 2016

O dia em que tentaram matar Bob Marley com tiro no coração

Bob Marley and The Wailers. Turnê de 1976.

Na noite de 3 de dezembro de 1976, sete homens armados entraram na casa do cantor de reggae mais famoso do mundo: Bob Marley. No pátio da casa, eles encontraram a esposa do cantor e compositor, Rita Marley, e, sem dizer nenhuma palavra, deram um tiro em sua cabeça.
Três deles cercaram a casa e os demais entraram na cozinha onde Marley conversava com os integrantes de sua banda, The Wailers, enquanto preparava uma salada de frutas. De acordo com a jornalista britânica Vivien Goldman, que estava na Jamaica na época, o que aconteceu foi uma cena de fuzilamento em câmera lenta.
Os homens dispararam contra os músicos. O sangue respingou nas paredes e formou poças no chão. Em meio aos gritos, um dos invasores apontou contra o peito de Marley e puxou o gatilho.
No total eles dispararam mais de 80 tiros. Mas, em um desfecho inacreditável, ninguém morreu naquela noite - ainda que as tensões tenham recrudescido no país.
Inacreditavelmente, apesar da violência do atentado, ninguém morreu naquela noite.

Jamaica, 1976


Mesmo 40 anos depois o episódio ainda é considerado obscuro e envolto em mistério. Na época, a Jamaica era um país oposto ao seu estereótipo atual. A ilha estava muito longe de ser um tranquilo paraíso caribenho. Em 1976, quem mandava eram os traficantes e pistoleiros; as tensões sociais estavam em seu ponto máximo e sob influência da Guerra Fria, além de ter estruturas políticas fragilizadas menos de duas décadas depois de sua independência do Reino Unido.
No mapa, a Jamaica está mais perto de Cuba do que Cuba está perto de Miami. E, na cartografia ideológica da década de 1970, Havana e Kingston eram vizinhas de Moscou.
O primeiro-ministro Michael Manley, do Partido Nacional do Povo (PNP), socialista e próximo de Fidel Castro, tentava a reeleição enfrentando Edward Seaga, do Partido Trabalhisa Jamaicano (JLP). Alguns ligavam Seaga à agência secreta americana, a CIA.
No meio desses extremos estava uma estrela mundial do reggae que tentava manter sua neutralidade, mas cuja música mobilizava centenas de milhares de eleitores.
"Os políticos são o diabo", disse Marley na época, de acordo com Mikal Gilmore, jornalista veterano da revista Rolling Stone . Os dois candidatos a premiê queriam que Marley fizesse campanha para eles. E, se ele não fizesse, o melhor seria é que ele ficasse em silêncio.

Ameaças


"Foi a época mais violenta que o país viveu, e Marley era praticamente a única força que poderia unir os dois grupos", explicou o escritor jamaicano Marlon James.
Em 1976, a fama mundial transformou o cantor de 31 anos em um líder quase espiritual de boa parte dos milhões de moradores da ilha.
O reggae tinha se transformado em uma expressão popular de um país pobre em que "as pessoas estavam cada vez mais desesperadas e violentas", segundo a jornalista Vivien Goldman. "A ilha parecia cheia de armas". O governo de Manley convenceu Marley a oferecer um show gratuito na capital, Kingston, para acalmar os ânimos da população que já estava cansada de viver em estado de emergência. O evento estava programado para o dia 5 de dezembro e se chamava Smile Jamaica ("Sorria Jamaica" em tradução livre).
Mas o primeiro-ministro também tomou outra decisão que parecia apenas confirmar a desconfiança do cantor em relação aos políticos: adiantou as eleições para o dia 15 de dezembro. E, dessa forma, ficou inevitável a associação entre Bob Marley e a campanha de reeleição de Michael Manley.
O cantor até alertou que, devido a essa manobra, as ameaças de morte contra ele aumentaram. Mesmo assim, Marley decidiu participar do show. Dois policiais foram designados para cuidar de sua casa, que também era onde o The Wailers ensaiava.
Mas na noite de 3 de dezembro, dois dias antes do Smile Jamaica, por alguma razão que até hoje ninguém conseguiu explicar, os sete homens armados entraram na casa de Marley sem que ninguém os impedisse. Os dois policiais simplesmente não estavam em seus postos.

'Sete Assassinatos'


Em apenas cinco minutos, os homens entraram na casa de Marley, dispararam contra todos e fugiram. Nunca foram capturados e nunca se soube quem eles eram ou para onde foram.
"É um mistério como esses homens, que talvez tenham cometido o crime mais temerário e doloroso da história da Jamaica, simplesmente desapareceram", contou o escritor Marlon James no site da editora Malpaso, que traduziu para o espanhol o livro que ele escreveu, A Brief History of Seven Killings (em tradução livre, Uma breve história de sete assassinatos).
No livro, James usa como ponto de partida o ataque contra Marley para mergulhar na vida dos bairros mais perigosos de Kingston, nos conflitos de raça e classe, nas guerras entre quadrilhas e nas conspirações de governo.
O resultado são quase 700 páginas nas quais se misturam as vozes de 76 personagens. Com elas, Marlon James venceu em 2015 o Man Booker Prize, talvez o prêmio literário mais famoso do idioma inglês.
De acordo com o jornal americano The New York Times, toda trama social explosiva daqueles anos girava em torno de Bob Marley, que ele tinha se transformado em uma espécie de santo para os oprimidos, um revolucionário para os conservadores e uma ameaça para os políticos.
A Jamaica nunca mais seria o lar que costumava ser.

'Salvo' por Selassie


Além de não saber como os sete homens conseguiram desaparecer, ainda não se sabe como Marley sobreviveu a um tiro no peito. O cantor sempre disse que foi salvo pelo espírito de Haile Selassie, o imperador da Etiópia morto no ano anterior (Para rastafáris como Marley, Selassie era a reencarnação de Deus. O uso dos cabelo "rasta" e da maconha também fazem parte desse movimento espiritual nascido na Jamaica).
"Se Marley, naquele momento, estivesse inspirando em vez de expirando, a bala teria atravessado seu coração", afirmou Marlon James.
A bala passou pelo peito de Marley e foi parar no braço esquerdo. Não houve tempo para um segundo disparo. No meio da confusão, Don Taylor, o agente do cantor, se jogou sobre ele, levando cinco tiros no abdome. Mas sobreviveu.
O caso mais incrível, no entanto, foi o de Rita Marley, a esposa de Bob. A bala disparada contra sua cabeça ficou presa entre seu couro cabeludo e o crânio sem fazer maiores danos.
Dois dias depois do ataque, ainda com curativos no peito e no braço, Marley se apresentou por mais de uma hora diante de mais de 80 mil pessoas no concerto Smile Jamaica. Rita o acompanhou, ainda usando a camisola do hospital.

'Exodus'


Poucos dias depois do show, Marley viajou. Foi para as Bahamas, aos Estados Unidos e depois para Londres. De certa forma, a Jamaica jamais voltou a ser seu lar como era antes.
Mas a tentativa de assassinato inspirou o que a revista americana Timeconsidera o melhor álbum de música do século 20, Exodus .
A primeira canção, Natural Mystic , diz:
Esta pode ser a primeira trombeta, pode ser também a última:
Muitos mais terão que sofrer,
Muitos mais terão que morrer.
No último minuto de um vídeo no YouTube, de imagens escuras e de má qualidade, é possível ver Bob Marley no fim da apresentação Smile Jamaica.
O cantor entrega o microfone a um companheiro de banda e se aproxima do público. Um policial faz a segurança.
Em frente à multidão, a lenda do reggae desabotoa a camisa devagar e mostra o ferimento a bala que cruzou seu peito chegando até ao braço esquerdo.

Marley continuou com esta bala alojada no corpo e na música até o dia de sua morte em 1981, com apenas 36 anos.
Fontes: Terra e BBC Brasil


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Jamaica prepara comemoração pelos 70 anos do nascimento de Bob Marley


O governo da Jamaica programou para fevereiro diversas atividades para comemorar o que teria sido o 70º aniversário de Bob Marley, o maior ícone da música reggae.
"Fui perguntado muitas vezes sobre qual é o valor do reggae, o que significou Bob Marley para a Jamaica e o turismo da ilha, e sempre respondi que é incalculável", disse nesta quinta-feira o ministro de Turismo e Entretenimento da Jamaica, Wykeham McNeill.
A lenda do reggae, que morreu em 1981 em Miami, aos 36 anos, completaria 70 anos em 6 de fevereiro deste ano. Natural da Jamaica, trata-se de um dos músicos que mais discos vendeu na história e a celebridade mais conhecida tanto do país natal, como da música reggae e do movimento rastafári.
Segundo explicou McNeill, no próximo dia 6 de fevereiro será realizado um simpósio no Museu de Bob Marley na cidade jamaicana de St. Andrew para debater sobre a influência do artista no reggae, a moda, a maconha e a economia do país caribenho.
No dia seguinte, o público poderá desfrutar de um show gratuito com artistas de reggae locais e internacionais no píer da capital, Kingston, para lembrar a figura de um artista que chegou a receber em vida a Medalha de Paz da ONU (1978).
Também está prevista uma partida de futebol com celebridades no final de fevereiro que levará o nome "One Love", em referência a uma das músicas mais famosas do cantor, que faz parte do Hall da Fama do Rock e conta com uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood.
"Essas são as conquistas de um grande homem. Esses reconhecimentos não são de uma pessoa qualquer e devemos dar crédito a ele por tudo o que alcançou. O que engrandeceu Bob foi a transcendência de suas canções. Ele falava de temas que tocavam a vida de um homem comum", disse o ministro. EFE
Fonte: Yahoo! Notícias

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Agradecer


Hoje, 20 de Novembro de 2014, eu só quero agradecer. Costumamos reclamar, protestar e reivindicar, mas, no calor da batalha, muitas vezes, esquecemos de agradecer às pessoas que possibilitaram que chegássemos até aqui.

Em primeiro lugar, sempre agradeço à minha mãe Maristela e ao meu pai Gilson, por nunca terem nos deixado faltar nada, apesar das grandes dificuldades que enfrentamos várias vezes. Por eu nunca ter passado um ano sequer fora da escola, ou deixado de estudar pra ajudar em casa, como eles tiveram de fazer. Eles me ensinaram que eu devia me esforçar pra ser sempre o melhor que eu pudesse, pois a vida é ainda mais difícil pra nós Negros. Me disseram que eu não podia sair de casa sem camisa ou sem identidade, nem ficar na rua até muito tarde. Que eu deveria evitar entrar em lojas, se não tivesse intenção de comprar, pois os olhares dos seguranças são bastante seletivos.

Agradeço aos que se foram e aos que ainda estão aqui:

Zumbi, Dandara, Ganga Zumba, e por extensão, a todos os quilombos brasileiros. Pessoas que não se submeteram ao poder patriarcal da colonização e resistiram enquanto puderam por uma vida justa e digna. Contra o jugo da escravidão, que transformava reis em prisioneiros.

Malcolm X, Martin Luther King Jr. e todo o Partido dos Panteras Negras, que, mesmo por meios diferentes, muitas vezes, até mesmo antagônicos, denunciaram a violenta segregação racial dos Estados Unidos e buscaram alternativas para que isso não mais ocorresse.

Luísa Mahin, ex-escravizada africana, mãe do abolicionista Luiz Gama e que participou ativamente de vários levantes de escravizados no Brasil do século XIX, como a Revolta dos Malês e a Sabinada, ambas em Salvador, e Maria Felipa, que lutou pela independência do Brasil na Bahia.

Nelson Mandela, uma das minhas maiores referências. O homem que sacrificou a juventude pelo ideal de ver uma África do Sul unida contra o Apartheid.

Abdias do Nascimento, Stuart Hall, Frantz Fanon, William DuBois, Amadou Hampaté Bâ, Elisa Lucinda, Bell Hooks, Angela Davis e toda a intelectualidade Negra mundial, que nos serve de ponto de partida para que tenhamos os elementos  teóricos necessários.

Bob Marley, Tupac Shakur, Racionais MC's, Ilê Aiyê e todas as pessoas que usam a música como manifesto político contra o racismo e as desigualdades sociais.

Mãe Menininha do Gantois, Mãe Stella de Oxóssi, Tia Ciata e todas as Ialorixás do Brasil, mulheres de muita força e coragem, que sustentam a tradição das religiões de matrizes africanas, apesar de todo o racismo travestido de Cristianismo.

Finalmente, a todos os espíritos ancestrais, por permitirem que nos encontremos com nossa própria história todos os dias, e por nos motivar a sair da cama, mesmo sabendo das adversidades que encontraremos pelo caminho. 

Se não fosse pela luta de cada um(a) de vocês, eu não sei se estaria aqui pra escrever isso.

Gill Nguni


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A barriga deles está cheia, mas nós temos fome


"A barriga deles está cheia, mas nós temos fome
Uma multidão com fome é uma multidão com raiva
A chuva cai, mas a sujeira permanece
Uma panela cozinhando, mas a comida não é suficiente."
(Bob Marley)


sábado, 28 de dezembro de 2013

3 anos de Ufanisi!


Este ano, por motivos diversos, não pude me dedicar ao blog como gostaria, mas nunca me afastei daqui , e quero agradecer a todas as pessoas que abraçaram essa ideia desde 2010, que surgiu totalmente despretensiosa, mas alcançou pessoas que eu não imaginava ser possível.
Agradecer a ícones como Nelson Mandela e Bob Marley, inspirações para o UFANISI desde o primeiro dia de postagem. A pessoas que me inspiraram com sua simplicidade e me ensinaram a ver o mundo de uma forma mais positiva, como Mestre Roque, da Associação de Capoeira Ogunjá, em Santo Antonio de Jesus-BA. 
Aos que me mostram que devemos ser humildes, mas nunca devemos baixar a cabeça diante de uma injustiça, nem fechar os olhos ao que nos inquieta. Ter autoconfiança, autoestima, se amar da maneira que você é e saber reconhecer seus próprios méritos não podem ser confundidos com vaidade ou soberba.
A todos os professores e alunos que já tive e ainda terei, por, diariamente, me ajudarem a buscar o caminho para ser uma pessoa melhor.
 Que os bons exemplos superem os maus, e que a gente possa viver em um mundo mais justo. Que as nossas diferenças nos unam, em vez de nos separarem ainda mais. Que ninguém seja julgado ou maltratado por pensar, ter religião, opção sexual, raça/etnia/cor de pele, visão política ou time de futebol diferente daqueles que se julgam hegemônicos.
Desejo um 2014 plural a todos nós. Porque ser igual a todo mundo é muito chato. ;)


PROSPERIDADE

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Pelos que se foram... Pelos que ainda estão aqui




E mais um aviso aos desavisados. Não sou como muitos dos "afro-oportunistas de 20 de Novembro", que vomitam piadas e brincadeiras racistas o ano todo, mas querem bancar os "politicamente corretos", "conscientes" etc. quando lhes convém. Muito menos como os pseudo-injustiçados que se sentem prejudicados pelas cotas, pelo Bolsa-Família, pelo Minha Casa, Minha Vida, por todas as ações afirmativas quesão NOSSAS conquistas, e não um beneplácito do PT, e ficam falando de "consciência humana", já que nunca sentiram na pele a "Sombra do Véu" (W.E.B. DuBois), o racismo que só quem é Negro de verdade sabe, sem precisar passar por escola nenhuma.
Quem me conhece sabe que eu sou isso aqui, "amo minha raça/luto pela cor/ o que quer que eu faça, é por nós/ por amor!" (Racionais MC's). Vivo, estudo e trabalho pra defender meu povo contra as injustiças, preconceitos, hipocrisias e o "apartheid disfarçado todo dia" (Adão Negro). É uma missão que abraço com muito orgulho, pois sei da minha importância enquanto professor e formador de opinião, ensinando com os livros e com os exemplos.
Falo e vou continuar falando, exaltando minha cor, denunciando quando houver necessidade e quem não quiser ler, poupe-me do trabalho, e exclua-me de suas redes sociais e do seu convívio. Garanto que gente assim não me fará a menor falta.
Minha amiga Joice C. Neres falou algo que eu não tinha pensado, ao falar sobre o feriado nacional de "Tiradentes", que em NADA acrescentou de fato para a história do país, mas é um feriado nacional, incontestável. Somos um país laico com dezenas de feriados cristãos, igualmente incontestáveis. Então, por que só o Dia da Consciência Negra depende da "boa vontade" dos governos de cada estado?
Por que tudo que se refere ao Negro precisa ter uma justificativa? Três séculos de escravidão e cinco séculos de racismo não são motivos suficientes?

terça-feira, 5 de março de 2013

Mundo tão desigual...


"A fome dos meus filhos não será a riqueza dos seus!" (Natiruts)
 À espera de um mundo mais justo e fazendo diariamente a minha parte pra que um dia as coisas mudem. A mudança tem de partir de dentro. 
Um dia acharemos o caminho!

domingo, 20 de novembro de 2011

Dia da Consciência Negra. Dia de reflexões

O país cresce, se consolida na esfera internacional, redistribui renda, diminui a taxa de analfabetismo, sobe posições em seu IDH e mantém sua população negra em padrões de vida semelhantes aos países da África Subsaariana. O país vai bem, os negros vão mal. (Douglas Belchior e Jaime Amparo Alves)



Mais do que apenas comemorações e tambores, neste dia 20 de Novembro, não podemos esquecer que o racismo ainda é muito grande no Brasil. Que nós Negros e Negras ainda temos salários inferiores aos dos brancos, ainda que desempenhemos as mesmas funções. Que ainda somos minoria nas universidades públicas, sobretudo em cursos de maior prestígio, como Medicina e Direito, apesar das Ações Afirmativas que, mesmo sofrendo duras críticas daqueles que sentem o seu "lugar ameaçado", estão fazendo um bom papel através do Sistema de Cotas na tentativa de democratizar o acesso das pessoas que historicamente ficaram à margem do "progresso".
Os Negros ainda são ignorados pela mídia nos comerciais, em papéis de destaque e em aspectos positivos, restando apenas as páginas e programas policiais.
O presidente dos Estados Unidos, a Miss Universo, as vencedoras do Prêmio Nobel da Paz e outras pessoas notáveis no mundo são Negras, sinal de que a mudança já começou em vários aspectos. Essas mudanças ainda precisam chegar até o Brasil de maneira mais efetiva. Já provamos que, ao contrário das teorias racialistas do século XIX, que ainda ecoam no século XXI, somos bonitos, inteligentes e capazes, como qualquer outra pessoa, o que nos falta ainda são as oportunidades. Mas não precisaremos pedir, continuaremos conquistando o que é nosso com os nossos próprios esforços!
Viva Zumbi!
Salve os Panteras Negras e os heróis da Revolta dos Búzios!
Salve Nelson Mandela, Martin Luther King, Bob Marley, Mestre Pastinha, Mestre Roque, Vovô do Ilê, Angela Davis, Mãe Stella de Oxóssi, Elisa Lucinda e todos os Negros e Negras que se separaram de suas famílias, atravessaram oceanos e sangraram durante séculos de escravidão para que eu pudesse estar aqui hoje escrevendo isso.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Guerra (Tradução de "War", de Robert Nesta Marley)


Mais do que uma letra de música, Bob escreveu um manifesto contra o racismo e as desigualdades que existem em diversas partes do mundo, sobretudo no continente africano.




Até que a filosofia 
que sustenta uma raça superior e outra inferior,
Seja finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada
Haverá guerra, eu digo guerra.

Até que não existam cidadãos de primeira
E de segunda classe de qualquer nação
Até que a cor da pele de um homem
Seja menos significante do que a cor dos seus olhos
Haverá guerra

Até que todos os direitos basicos sejam igualmente
Garantidos para todos, sem discriminação de raça,
Guerra

Até esse dia
O sonho de paz duradoura, da cidadania mundial e
As regras da moralidade internacional,
Permanecerão como ilusões fugares
Para serem perseguidas, mas nunca alcançadas
Agora haverá guerra, guerra.

Até que os regimes ignóbeis e infelizes,
Que aprisionam nossos irmãos em Angola, em Moçambique,
África do Sul em condições subumanas,
Sejam derrubados e inteiramente destruídos haverá
Guerra, eu disse guerra.

Guerra no leste, guerra no oeste,
Guerra no norte, guerra no sul,
Guerra, guerra, rumores de guerra.

Até esse dia, o continente africano
Não conhecerá a paz, nós africanos lutaremos
Se necessário e sabemos que vamos vencer,
Porque estamos confiantes na vitória

Do bem sobre o mal,
Do bem sobre o mal...


Link da música:

terça-feira, 12 de julho de 2011

Levante, Resista! Lute pelos seus direitos!
Levante, Resista! Não desista da luta!


(Bob Marley)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

30 anos de morte de Bob Marley

Em 11 de maio de 1981, há exatos 30 anos, o mundo perdia o maior ícone da história do Reggae e um dos maiores expoentes da música mundial, independentemente de rótulos e estilos. Robert Nesta Marley foi precocemente vitimado por um câncer, aos 36 anos de idade, quando sua carreira estava no auge. Suas músicas sempre falaram de amor, de respeito, de libertação dos oprimidos frente à dominação que transcende a escravidão física. Sempre pregou que as pessoas deviam "se emancipar da escravidão mental" na qual muitas ainda estão presas.
Um rei com a simplicidade de um súdito. Um líder que não queria seguidores aos seus pés. Que sua música e suas mensagens permançam conosco para sempre!



Três Passarinhos (tradução de "Three Little Birds")

Não se preocupe com nada,
Porque cada pequena coisa
Vai ficar bem


Tô dizendo, não se preocupe com nada
Porque cada pequena coisa
Vai ficar bem


Levantar esta manhã
Sorrir com o sol nascente
Três passarinhos
Pela minha porta
Cantando músicas doces
De melodias puras e verdadeiras
Dizendo: "Esta é a minha mensagem para você"



Tô dizendo, não se preocupe com nada
Porque cada pequena coisa
Vai ficar tudo bem...
(Dedicado à minha amiga Rafaela. "Every little thing gonna be all right", Rafa!)

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Redemption Song (Bob Marley)

Resolvi postar a tradução de Redemption Song por ser uma das músicas de Bob que mais me lembram a diáspora africana, uma das canções que melhor a representa.


Canção de Redenção

Velhos piratas, sim, eles me roubaram,
Me venderam para navios mercantes
Minutos depois deles terem me tirado
De um buraco menos profundo
Mas minha mão foi fortalecida,
Pela  mão do todo poderoso
Nós avançamos nessa geração
Triunfantemente!

Você não irá ajudar-me a cantar,
Essas canções de liberdade?
Porque tudo o que eu sempre tive são:
Canções de redenção
Canções de redenção

Liberte-se da escravidão mental,
Ninguém além de nós pode libertar nossas mentes
Não tenha medo da energia atômica,
Porque eles não podem parar o tempo
Por quanto tempo vão matar nossos profetas?
Enquanto nós permaneceremos de lado olhando
Huh, alguns dizem que é apenas uma parte disto
Nós temos que completar o Livro

Você não irá ajudar-me a cantar,
Essas canções de liberdade?
Porque tudo o que eu sempre tive são:
Canções de redenção
Canções de redenção
Canções de redenção

Liberte-se da escravidão mental,
Ninguém além de você pode libertar sua mente
Não tenha medo da energia atômica,
Porque eles não podem parar o tempo
Por quanto tempo vão matar nossos profetas?
Enquanto nós permaneceremos de lado olhando
Huh, alguns dizem que é apenas uma parte disto
Nós temos que completar o Livro

Você não irá ajudar-me a cantar,
Essas canções de liberdade?
Porque tudo o que eu sempre tive são:
Canções de redenção
Porque tudo o que eu sempre tive são:
Canções de redenção
Essas canções de liberdade
Canções de liberdade

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