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segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Sugestão de série: Colin em Preto e Branco

 


"Algumas pessoas jogam o jogo. Outras o mudam".

Estreou na Netflix "Colin em Preto e Branco", a série biográfica de Colin Kaepernick, ex-jogador do San Francisco 49ers, time de futebol americano. Kaepernick se tornou notícia fora da NFL por se ajoelhar durante a execução do hino dos EUA, em protesto ao racismo e à violência policial contra as populações Negras no país, em 2016. Como represália, não teve seu vínculo renovado com o 49ers nem foi aceito por mais nenhum outro time da liga profissional de futebol americano desde 2017.


Criada por Ava DuVernay (de Selma, Olhos que condenam, 13° Emenda) e pelo próprio Colin Kaepernick, que narra e intervém como se fosse um espectador da própria história, a série tem apenas seis episódios curtos, em que sua vida a partir do colegial serve  como pano de fundo pra diversas questões, como racismo e política. Jaden Michael (de The Get Down) o interpreta em sua versão mais jovem.


Apenas 1/3 dos jogadores Negros da NFL se tornam quarterback (a posição de Kaepernick, considerada a mais importante do time, uma espécie de camisa 10 no nosso futebol), mesmo que os jogadores Negros sejam cerca de 70% na liga. 

O protesto pacífico, solitário e silencioso de Kaepernick ganhou eco na NFL, NBA e se espalhou pelos campos de futebol de várias partes do mundo. Até mesmo o Comitê Olímpico Internacional reviu sua posição de proibir manifestações políticas nas Olimpíadas. 

"Quem disse que resistir é inútil?"



domingo, 30 de agosto de 2020

Lewis e LeBron: As maiores vozes dos esportes na luta contra o racismo e o genocídio

 

Lewis Hamilton
ao vencer o GP da Bélgica hoje, prestando homenagens a
Chadwick Boseman.


O britânico Lewis Hamilton e o estadunidense LeBron James transcendem os limites físicos da área em que atuam e desafiam aqueles que repetem o erro absurdo de que "não se pode misturar esportes e política".
Hamilton carrega há quase 10 anos o fardo de ser "o primeiro (e único) piloto Negro de Fórmula 1". Bate todos os recordes possíveis a cada fim de semana, mas ainda é comum ver "especialistas" de internet questionando sua qualidade e colocando pilotos que não possuem nem a metade dos seus números à sua frente na lista dos "melhores de todos os tempos".
Sofre duras críticas dentro e fora dos paddocks pelo posicionamento firme contra o racismo e a falta de representatividade na Fórmula 1.
Seu constante engajamento possibilitou que sua equipe, a Mercedes, tivesse a primeira mulher Negra e africana a subir no pódio da Fórmula 1 em 70 anos de história, a engenheira do Zimbábue Stephanie Travers, no GP da Estíria. Também abriu o canal de diálogo para que outras ações mais concretas possam ser tomadas, para que este esporte tão elitista possa ser mais inclusivo.

LeBron James
 no triunfo do Lakers sobre o Blazers, também fez o "Wakanda Forever"


LeBron James é um dos maiores atletas da história da NBA e a principal voz na luta contra o racismo, o genocídio da população Negra nos EUA e, mais recentemente, pelo voto, que não é obrigatório por lá. Se manifesta nas partidas, nas redes sociais e nas entrevistas, além de já ter construído escolas em Cleveland, sua cidade natal, e manter diversos projetos sociais. Sua postura combativa incomoda o White Devil e a ala mais "conservadora" dos Republicanos, mas serve de exemplo aos atletas mais jovens e de pressão nas famosas ligas de esportes do país, que reconheceram sua apatia histórica e apoiaram os boicotes dessa semana.
Muitos chegaram a dizer que James fazia essas coisas para se promover, logo ele, um dos atletas mais bem pagos do mundo. Só mais uma tentativa de transformar a questão racial em uma coisa menor do que ela realmente é.
Menção honrosa a
Colin Kaepernick
, que começou um protesto solitário na NFL e pagou com a carreira. Sigo esperando que ele seja inserido novamente em alguma equipe e que a liga de futebol americano peça desculpas pela perseguição a que Kaepernick sofreu.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Colin Kaepernick renova contrato com a Nike e volta a causar "polêmica"

"Acredite em algo. Mesmo que isso signifique sacrificar tudo."
Por Gill Nguni

É incrível como as mesmas pessoas que menosprezam constantemente a luta antirracista, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, escondendo-se na falácia do "somos todos iguais", passam a sentir na pele quando não se veem representadas. Deve ser muito difícil ver uma grande empresa lançar uma peça publicitária sem um personagem branco como centro das atenções, né?

Colin Kaepernick voltou a ser assunto (para os brancos, pelo menos) após a Nike o anunciar como garoto-propaganda da sua famosa campanha "Just Do It", que está completando 30 anos. Desde o anúncio extraoficial, celebridades como LeBron James e Alicia Keys, por exemplo, manifestaram apoio em suas redes sociais, mas, no sentido oposto, surgiram inúmeras reações raivosas de consumidores brancos, revoltados com a escolha da empresa.

Pra quem não lembra, Colin Kaepernick foi jogador do San Francisco 49ers, time da NFL - principal liga de futebol americano, que se ajoelhou durante a execução do Hino Nacional dos EUA antes das partidas, protestando contra os constantes assassinatos de Negros pela polícia, fato que também é bastante comum aqui no Brasil, embora nenhum atleta tenha coragem suficiente pra se posicionar de maneira tão incisiva (Veja AQUI). 
“Eu não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor. Para mim, isso é mais importante que futebol e seria egoísta da minha parte virar a cara. Há corpos na rua enquanto os responsáveis recebem licença remunerada e ficam impunes por assassinatos.”


Os protestos de Kaepernick lhe custaram sua permanência na NFL, já que muitos times o evitaram, por medo de receberem as polêmicas no mesmo pacote ou por mero boicote mesmo. Inclusive, o ex-jogador do 49ers está processando a liga pelo que aparenta ser uma represália, pois sua manifestação solitária foi recebendo cada vez mais adesão, até entre os jogadores adversários, chegando também a outros esportes, como a NBA (principal liga de basquete), no atletismo e no futebol dentro e fora do país.

Ao renovar o contrato com Colin Kaerpernick, assinado desde 2011 e que já estava próximo do fim, a Nike entrou forte na briga midiática e resolveu encarar a forte onda "conservadora" (um bom eufemismo pra racista) no país, representada pelo próprio presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que sempre se manifesta no Twitter contra qualquer atleta Negro que mostre algo além do mero entretenimento. Tal postura, inclusive, o deixou numa saia justa ao final da NBA na temporada 2017-2018, quando ambos os times finalistas - o Cleveland Cavaliers de LeBron James e o Golden State Warriors de Stephen Curry - recusaram a tradicional visita à Casa Branca após o título, independentemente de quem vencesse o campeonato. Trump representa uma legião de doentes que está cada vez maior no mundo. Pessoas postaram vídeos queimando roupas e tênis da Nike, em represália à escolha da empresa, e as ações caíram cerca de 3% nesta terça pós-anúncio.

O sistema tenta se proteger de todas as formas, fazendo o possível para que nada mude. Não que a Nike seja uma empresa virtuosa, solidária e defensora dos direitos humanos, longe disso, mas nada justifica reações tão simbolicamente violentas quanto a que estamos vendo nestes anos de radicalização das relações interpessoais. Manifestar uma opinião  tornou-se algo muito perigoso, e sair do "padrão" típico - homem, branco, cristão, heterossexual - na mídia é um ato de coragem. É um trabalho que todxs nós temos de fazer, cada umx à sua maneira. Mesmo que isto signifique sacrificar tudo.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Por que os atletas Negros brasileiros não se posicionam contra o racismo?

Colin Kaepernick (dir.) ex-jogador do San Francisco 49ers, iniciou uma onda de protestos contra o racismo e a violência policial que se espalhou pelos EUA.

Por Gill Nguni

Para os amantes dos esportes, principalmente pra quem acompanha as ligas estadunidenses, com destaque para a NBA e a NFL (liga de basquete e de futebol americano, respectivamente), é impossível passar incólume pelos protestos que tomaram conta do país, desde que Colin Kaepernick, então quarterback do San Francisco 49ers, ajoelhou pela primeira vez durante a execução do hino nacional dos Estados Unidos. Começou como uma manifestação solitária e silenciosa contra o racismo e violência policial que afeta muito mais as populações Negras do que as brancas ou de outras etnias, tanto lá quanto aqui, mas acabou se espalhando pelo país como um furacão. 

Em tempos de um abertamente racista Donald Trump como presidente, Kaepernick despertou sentimentos diversos na população. Teve uma forte reação dos mais conservadores, sofreu boicotes de patrocinadores, não teve seu contrato renovado com o 49ers nem conseguiu outro time na liga, mas, em contrapartida, viu as vendas de sua camisa dispararem (como pode ser visto AQUI) e recebe até hoje, mais de um ano depois, a adesão de demais atletas e personalidades Negras do país, como a tenista Serena Williams, astros da NBA como LeBron James e Stephen Curry e bandas como o Prophets of Rage (composta por músicos do Rage Against The Machine, Cypress Hill e Public Enemy), além do apoio de vários jogadores e instituições da própria NFL. A eleição de Trump à Casa Branca, com suas declarações lamentáveis, contribuiu para o aumento das tensões raciais nos EUA, cada vez mais violentas.

Voltando ao questionamento do título, por que é tão incomum ver manifestações públicas de repúdio de atletas Negros ao racismo no Brasil? Por que personalidades dos esportes, como Pelé, Neymar, Daniel Alves, Gabriel Jesus, William, entre outros, não se posicionam? Aqui, os atletas só se manifestam quando eles próprios são as vítimas e, até mesmo nestes casos, a manifestação é tímida, logo abafada pela imprensa. Não é raro acontecer um caso de racismo nos estádios de futebol, mas não tem muito alarde nem repercussão. Assim como nos EUA, a violência policial também é mais incisiva nos bairros periféricos e contra as populações Negras. O encarceramento em massa, as parcialidades da justiça e o biotipo suspeito têm a mesma cor, aqui ou lá.
O caso Aranha (ex-goleiro do Santos) foi o último de grande repercussão no Brasil, em 2014. O Grêmio foi excluído da Copa do Brasil, após insultos racistas de sua torcida ao goleiro, mas nada mudou na maneira como o país lida com o racismo.


Uma hipótese levantada e que eu prontamente discordo é de que "o racismo nos Estados Unidos é escancarado e o do Brasil é velado". Não tem nada de "velado" na maneira como o racismo nos atinge. Muito pelo contrário, é alardeado aos quatro ventos por "personalidades" da TV, do entretenimento e da política, incluindo aspirantes ao cargo de presidente da República. É explícito na ausência de pessoas Negras na mídia, no jornalismo, nos programas de esportes e nos cargos de chefia de grandes empresas. 

Outras pessoas dizem que a formação dos atletas estadunidenses, normalmente oriundos de faculdades, influencia em seu posicionamento, por possuírem uma "bagagem cultural" maior que a maioria dos atletas brasileiros, de origem humilde e com baixa escolaridade. Esta afirmação soa até preconceituosa e elitista, por achar que apenas as pessoas de nível superior sabem se expressar com coerência. O racismo não escolhe escolaridade nem classe social. Nenhum Negro está isento de ser uma vítima, sendo famoso ou anônimo, professor ou analfabeto. Artistas de diversas áreas e moradores de comunidades quilombolas nem sempre possuem nível superior, mas se manifestam de maneira contundente contra o racismo e o verdadeiro genocídio do povo Negro, comparável às mais terríveis zonas de guerra do Oriente Médio ou do Leste Europeu.

Não falta escolaridade. Falta coragem. Muitos atletas Negros têm medo de perder os privilégios dos patrocinadores, temem represálias ou, em casos mais extremos, até gostam de se sentir "diferentes" dos demais, passando batidos pelo que acontece e pelo que veem diariamente nos noticiários, levando a vida como se não tivessem nada com isso. Até que o racismo os encontre num restaurante chique, num condomínio, numa concessionária ou na porta giratória de algum banco.


terça-feira, 20 de setembro de 2016

Camisa de jogador de futebol americano se torna a mais vendida após protesto durante hino nacional


Colin Kaepernick e Steve King, em seu protesto contra o massacre sistemático da população Negra nos EUA.

Pequenos gestos são capazes de gerar grandes repercussões. Colin Kaepernick se tornou notícia no mundo inteiro, após seus protestos antes do hino dos EUA se espalharem por outros jogadores e ligas profissionais de esportes de seu país. Como era de se esperar, há reações de setores conservadores (muitos, claramente racistas) e retaliações de alguns patrocinadores a vários atletas. Não é surpresa. Sempre foi assim. Qualquer reação Negra ao racismo é vista como "racismo ao contrário" (essa merda nem existe!). O bom é que, por outro lado, o fato de a venda de suas camisas dispararem significa que Kaepernick não está sozinho. Nenhum de nós jamais estará.

Por Amy Tennery
NOVA YORK (Reuters) - As camisas do jogador Colin Kaepernick foram as mais vendidas nesta terça-feira no site oficial da NFL, liga norte-americana de futebol americano, após ele protestar contra injustiças raciais e brutalidade policial nos Estados Unidos.
Kaepernick, quarterback do San Francisco 49ers, se negou a ficar em pé durante o hino nacional antes de jogo da pré-temporada em 26 de agosto e em um jogo na semana passada, gerando irritação e apoio de jogadores da NFL e fãs pelo país.
Em uma lista de todas as camisas disponíveis na NFLShop.com, a de Kaepernick era a primeira na área de "Mais Vendidas", superando as de jogadores novatos de alto perfil, como Carson Wentz, do Philadelphia Eagles, e Ezekiel Elliott, do Dallas Cowboys.
As vendas de camisas de Kaepernick aumentaram desde que ele iniciou seu protesto, de acordo com um relato da ESPN no fim de semana, que citava "uma fonte com conhecimento de números de vendas".
Kaepernick é o quarterback número dois dos 49ers, atrás de Blaine Gabbert, que foi selecionado para o elenco inicial na partida contra o Los Angeles Rams na quarta-feira.
Desde o início da manifestação, muitos torcedores disseram nas redes sociais que queriam comprar a camisa como sinal de solidariedade.
"Nunca assisti uma partida de futebol americano, mas acabei de comprar a camisa de Colin Kaepernick e irei usar com orgulho", disse na sexta-feira um usuário chamado Sean no Twiter.
"Preciso de uma camisa de Colin Kaepernick o mais rápido possível", tuitou Oliver Ellison na terça-feira. "(Ela) é icônica agora".
Fontes: Reuters/ UOL Esportes

“Eu não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor. Para mim, isso é mais importante que futebol e seria egoísta da minha parte virar a cara. Há corpos na rua enquanto os responsáveis recebem licença remunerada e ficam impunes por assassinatos.”

(Colin Kaepernick, quarterback do San Francisco 49ers)