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domingo, 15 de julho de 2018

A ascensão meteórica de N'Golo Kanté


Neste domingo, a França  sagrou-se bicampeã mundial na Arena Lujniki, em Moscou, ao vencer a Croácia por 4 a 2. Gols de Mario Mandzukic (contra), Antoine Griezman, Paul Pogba e Kylian Mbappé para a França; e Mandzukic (desta vez, a favor) e Ivan Perisic pela Croácia.

Um dos grandes personagens do título francês atende pelo nome de N'Golo Kanté. O volante de 27 anos e apenas 1,68m de altura é um dos quase 80% dos jogadores do elenco que são filhos de imigrantes africanos, justamente no momento em que as discussões em torno da imigração estão latentes na Europa, sobretudo em países como a França, Alemanha e Inglaterra. É notório que a França não conseguiria vencer a Copa do Mundo sem a presença dos jogadores de ascendência africana, apesar de tantas campanhas xenofóbicas e racistas pelo país. Sobre a relação conturbada da França com seus jogadores de dupla cidadania, uma boa sugestão é o filme Les Bleus - Uma outra história da França.

Filho de imigrantes do Mali, África Setentrional, Kanté nasceu em Paris. Na única vez em que a França havia vencido uma Copa, em 1998, o menino de sete anos catava lixo nas ruas da cidade para ajudar a família. Aos 11, após o falecimento do seu pai, Kanté tentou iniciar sua carreira no futebol, mas não deu muito certo e ele priorizou o estudos, se formando em contabilidade. Em 2010, integrou a equipe B do Boulogne, promovido à equipe principal durante a temporada 2012/2013.

A partir daí, a carreira de N'Golo foi só ladeira acima. Após jogar pelo Boulogne a terceira divisão francesa e conquistar o acesso, foi contratado pelo Caen para jogar a Ligue 2, fazendo parte da seleção do campeonato no fim da temporada e chegando, finalmente à Ligue 1. Em seu primeiro jogo na primeira divisão, marcou seu primeiro gol pelo Caen contra o Évian.

Kanté foi eleito o melhor jogador da temporada 2015/2016 da Premier League, no incrível título do Leicester City.


Em 2015, Kanté se transferiu para o Leicester City, da Inglaterra, e participou da histórica campanha do inédito título da Premier League, sendo eleito o melhor jogador do campeonato inglês daquela temporada. Sua brilhante campanha atraiu a atenção de várias equipes, e ele acabou se transferindo para o Chelsea em 2016. Foi peça-chave no título dos Blues na temporada 2016/2017.
Suas brilhantes atuações o levaram à seleção francesa em 2016, onde estreou contra a Romênia na Eurocopa realizada em seu país. Integrou a equipe que viria a ser derrotada por Portugal na final, mas que também seria a base da seleção campeã da Copa do Mundo de 2018.

No espaço de apenas cinco anos, driblando a desconfiança por causa de sua baixa estatura, o racismo, a pobreza e todas as dificuldades proporcionadas pela imigração na Europa, N'Golo Kanté saiu em uma série de acessos e títulos, da terceira divisão da França ao posto mais importante do futebol mundial. Nesta janela de transferências, é um dos nomes mais badalados, com propostas milionárias do Barcelona, Paris Saint-German e Real Madrid, além do próprio Chelsea. O filho de malineses, que catava lixo há 20 anos atrás, hoje é um dos jogadores mais importantes e valorizados do mundo. 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Atentados a Paris: uma consequência histórica


A França SEMPRE foi um país genocida, assassino e imperialista, que devastou a África por séculos e reagiu violentamente ao processo de independência de suas colônias. É certo que não devemos endossar a violência extremista do Estado Islâmico, mas não se pode fechar os olhos para a História. Aliás, não só ao passado, mas ao presente, em que a França e seus aliados bombardeiam a Síria e deixam corpos de civis em uma quantidade muito maior do que as vítimas de Paris.

O fanatismo religioso de grupos radicais muçulmanos identificados como "terroristas" no Ocidente, junto com  o desespero de ver sua cidade, seu país ser constantemente invadido, saqueado e bombardeado, durante gerações, acabam abrindo caminho para que grupos como o ISIS (sigla em árabe para "Estado Islâmico") ganhem cada vez mais adeptos, num ato suicida de oferecer a seus agressores um pouco do terror que eles vivenciam e também promovem, já que, nesse jogo, ninguém é "santo". 

A Europa vive hoje a mesma sensação de insegurança que assola grande parte dos países africanos e asiáticos, continentes esquecidos pela mídia no que se refere aos direitos humanos. Não sei se é a proximidade geográfica, a seletividade dos meios de comunicação, que dão uma cobertura sensacionalista a alguns fatos, mas esquecem outros ao seu bel prazer, ou a falta de interesse histórico e humanitário do Ocidente a estas regiões do globo, que fazem com que nós brasileiros ignoremos por completo os ataques terroristas de franceses, estadunidenses, ingleses, russos e alemães a alvos civis da Síria, Afeganistão, Iraque, além de patrocínios ou "vistas grossas" a grupos paramilitares da Nigéria, Israel e Sudão, por exemplo.

Nenhuma dor vale mais que a outra. Os civis franceses que morreram ou se feriram nos ataques a Paris na sexta-feira, 13 de novembro de 2015, são tão vítimas quanto as do World Trade Center, nos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001, as do metrô em Madri em 11 de março de 2004 e a todas as pessoas que morreram, direta ou indiretamente, pelas mãos do colonialismo europeu nas lutas pela descolonização da África e da Ásia, entre o final do século XIX e todo o século XX. Contudo, não podemos esquecer que tudo isso que acontece hoje é o caminho de volta, a consequência histórica a toda a violência e intolerância perpetradas pelos senhores da guerra, que dividiram o planeta entre eles, como se tudo fosse seu.

No fim das contas, "Terrorismo" é apenas uma questão de ponto de vista, ou de quem tem argumentos mais convincentes. Para os sírios, afegãos, iraquianos, palestinos, nigerianos e sudaneses, os terroristas somos nós.