terça-feira, 7 de julho de 2020

Negros morrem mais de Covid-19 do que os brancos


Do primeiro ministro britânico Boris Johnson ao ator Tom Hanks, da influenciadora digital Gabriela Pugliesi à cantora Preta Gil, o início do surto, o novo coronavírus pareceu não poupar ninguém: todos estariam igualmente expostos à doença. O governador de Nova York, Andrew Cuomo, chegou a afirmar que o coronavírus era um “grande equalizador” ao divulgar que seu irmão mais novo havia contraído o vírus. À primeira vista, o raciocínio parece lógico: se ninguém tem imunidade contra microrganismo, que não escolhe suas vítimas, em tese todos estão sujeitos ao mesmo risco de infecção.

Não demorou muito para que dados derrubassem o equívoco e escancarassem o impacto das desigualdades sociais na prevenção e propagação da pandemia. Em países como Estados Unidos e Brasil, campeões de casos no mundo, é quase impossível não falar de desigualdade social e racismo. Por aqui, 75% dos mais pobres são negros, segundo um levantamento realizado em 2018 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que apontou como pretos e pardos trabalham, estudam e recebem menos que os brancos no país.
Nos Estados Unidos, primeira nação das Américas a ver a escalada dos casos, a desproporção é gritante. Embora 18% da população do país seja negra, 52% dos casos e 58% das mortes por Covid-19 são de pacientes negros, segundo um relatório da amfAR publicado no início de maio. Em estados como Geórgia, Louisiana e Alabama, as disparidades são ainda maiores, conforme mostra o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC): na Geórgia, 83% dos internados são negros, que correspondem a 32% da população; em Louisiana, estado com 33% da população negra, as mortes afroamericanas equivalem a 70%; e, no Alabama, a proporção de mortes é de 44% em uma população de 26%.
No Brasil, os dados do Ministério da Saúde sequer eram separados por cor no início da pandemia. Os boletins só passaram a incluir tais números a partir do dia 11 de abril, quase um mês e meio depois da confirmação do primeiro caso de Covid-19, e graças à pressão da Coalizão Negra por Direitos, um grupo de 150 entidades que, no início de abril, enviou uma carta ao Ministério da Saúde e às secretarias de saúde de todos os estados pedindo a divulgação da cor, do gênero e dos bairro dos infectados. “A quantidade de notificação sem informação de cor só reforça o racismo institucional, que invisibiliza os negros”, diz a médica Rita Helena Espirito Santo Borret, coordenadora do Grupo de Trabalho (GT) de Saúde da População Negra da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC).
Os dados são desanimadores: uma análise da Agência Pública mostrou que há uma morte para cada três brasileiros negros hospitalizados por Covid-19, enquanto entre brancos a proporção é de uma morte a cada 4,4 internações. Em São Paulo, cidade com o maior número de casos, bairros com maior concentração de negros têm mais óbitos pela doença. Dos dez com o maior número absoluto de mortes por coronavírus, oito têm mais negros que a média municipal.
Um estudo liderado por pesquisadores da PUC-Rio e divulgado no último dia 27 de maio evidencia ainda mais essas disparidades. Em termos de óbitos por Covid-19, pessoas sem escolaridade têm taxas três vezes maiores (71,3%) em relação àqueles com nível superior (22,5%). Combinando raça e índice de escolaridade, o cenário fica ainda mais desigual: pretos e partos sem escolaridade morrem quatro vezes mais pelo novo coronavírus do que brancos com nível superior (80,35% contra 19,65%). Considerando a mesma faixa de escolaridade, pretos e pardos apresentam proporção de óbitos 37% maior, em média, do que brancos.
“Entendemos que o racismo está estruturado na nossa sociedade, e por isso impacta a vida de todos de diferentes formas”, diz Luís Eduardo Batista, pesquisador do Instituto de Saúde da Secretaria de Saúde de São Paulo. “Ele interfere no acesso aos serviços, na qualidade e até nas relações do usuário com o profissional", complementa Batista, que também é coordenador do GT Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).
E isso é uma via de mão dupla: vale tanto para pacientes que não confiam ou se recusam a ser atendidos por profissionais de saúde negros quanto para médicos e enfermeiros que não estão preparados para lidar com a população negra. “Existe uma reprodução do racismo institucional na instituição saúde”, avalia Borret. "Médicos e todos os outros profissionais da saúde são pessoas da mesma sociedade, que é racista. Na medicina e em outros cursos, não há cuidado de atentar para a saúde da população negra, isso hierarquiza as pessoas que têm mais direito a viver, e neste caso são os brancos”, analisa a médica. 
Desigualdade estrutural
Até o momento, não foi identificado se há componentes genéticos que aumentem o risco da população negra acometida pelo novo coronavírus. Sabe-se, no entanto, que ela tem maior predisposição a diabetes e hipertensão, condições que aparecem como comorbidades em vítimas de Covid-19. Ainda assim, explica o representante da Abrasco, esse tipo de informação costuma ser negligenciada pela comunidade médica. “A Sociedade Brasileira de Hipertensão, por exemplo, não avisa os profissionais em seus materiais que negros têm níveis pressóricos mais altos”, observa.

Mesmo com a predisposição às comorbidades, os principais fatores que deixam a população negra mais vulnerável ao novo coronavírus são sociais. “A população negra tem menos acesso a saneamento, vive mais concentrada, com mais trabalho informal ou desemprego”, diz Borret. “Falam ‘lave as mãos’, mas não tem saneamento básico e água encanada. Falam ‘vamos fazer isolamento’, mas que isolamento social é esse, se porteiros e cozinheiras continuam tendo que trabalhar?”, critica Batista. Esses fatores sociais podem, aliás, ser relacionados às próprias comorbidades: pobres têm mais obesidade, diabetes, hipertensão e colesterol alto por falta de dietas equilibradas (o maior exemplo é a cesta considerada básica, que não costuma incluir frutas e verduras).
O acesso aos serviços de saúde também está relacionado a fatores sociais. A começar pela própria localização deles — os hospitais de campanha de São Paulo, por exemplo, foram construídos no centro da cidade, embora haja mais casos na periferia. E quase 80% da população brasileira que depende do Sistema Único de Saúde (SUS) se autodeclara negra, mas somente 44% dos leitos de unidade de terapia intensiva (UTIs) estão no sistema. “Ter um sistema único garante o mínimo de cuidado, mas quando olhamos para a distribuição dos leitos de UTI, respiradores, e outros equipamentos necessários no tratamento da Covid-19, ela é muito desigual”, destaca Borret.
Política da morte
“Vivemos hoje em uma política que propõe que quem tem dinheiro vai ter acesso à saúde, e há pessoas autorizadas a morrer: pretas, pobres e periféricas”, pontua a médica da SBMFC. É o fenômeno da “necropolítica”, termo cunhado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, que investiga como governos decidem quem vive e quem morre, e de que maneira isso vai acontecer. O exemplo máximo foi a frase dita pelo presidente Jair Bolsonaro no início da pandemia: “alguns vão morrer? Vão morrer. Lamento, essa é a vida.”

É a certeza, velada ou subconsciente, de que não fazem parte desse “alguns” que leva muita gente a fazer pouco caso da nova pandemia, reforçando a ideia de que ela não é nada democrática. “Para algumas pessoas, está tudo certo este pacto social que temos de que muitos vão morrer, mas estes muitos não serão os meus, porque minha família está aqui protegida”, ilustra Batista.
Por mais recente que seja o termo necropolítica (Mbembe o descreveu em 2003) e que no início a pandemia de fato tenha se espalhado pelas elites brancas, ela já começa a seguir um curso que não é nenhuma novidade na história: na medida em que os mais ricos superam a doença e conseguem frear o contágio entre si, criando uma espécie de “bolha”, e ela se espalha para as camadas mais pobres, a enfermidade passa a ser negligenciada.
Passado que se repete
Foi assim com a peste bubônica em 1349. Segundo a revista Scicence, o cronista francês Gilles Li Muisis chegou a escrever que “nem os ricos, a classe média, nem os pobres estavam seguros; cada um teve que esperar a vontade de Deus.” De fato, entre 1347 e 1351, de 30% a 60% dos europeus padeceram por causa da peste. A França perdeu quase metade de sua população, assim como a cidade de Londres, uma das maiores metrópoles já naquela época.

Mas estudos arqueológicos recentes, que avaliaram esqueletos em cemitérios criados especificamente para as vítimas da peste, identificaram que as desigualdades sociais e econômicas desenharam o rumo da pandemia. E, após a primeira grande onda, os ricos começaram a se isolar logo no início de novos surtos. Entre 1563 e 1665, a mortalidade da peste entre as camadas mais ricas de Londres teve uma redução significativa, enquanto permanecia igual ou crescia entre os mais pobres, segundo registros de batismos e certidões de óbito. Não à toa, médicos italianos passaram a considerar a peste uma doença dos pobres.
O ciclo se repete até hoje. “Se olhar para todas as doenças infecciosas que não conseguimos erradicar no nosso país, como tuberculose e hanseníase, elas são mais frequentes entre a população preta e pobre”, diz Borret. “Porque a população que tem dinheiro e acesso consegue achar meios para diminuir a contaminação entre si, e aí isola o agente infeccioso entre a população que está autorizada a morrer. Isso, que está acontecendo agora com o coronavírus e pode ser que aconteça de novo mais para frente, não é nada novo, é o caminho natural que as doenças infecciosas seguem no nosso país.”
Para quebrar este ciclo, é preciso mais do que medidas imediatistas de combate a surtos epidêmicos, que são importantes, mas não resolvem o verdadeiro problema: o racismo estrutural que vem desde os tempos de colonização. “No Brasil, logo depois da escravidão, nunca houve políticas para integrar os negros na população”, diz a especialista da SBMFC. “A população negra pode até ser a maioria em número, mas é minoria em poder, e não é representada, está sempre na subalternidade.”
A pandemia pode até ter feito parcelas da sociedade civil finalmente enxergarem populações vulneráveis e invisibilizadas, mas seu efeito equalizador para por aí — porque, pelo visto, este será mais um episódio da história com o qual vamos aprender muito pouco ou, talvez, nada.
Fonte: Galileu

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Antirracismo em 10 pontos

O assassinato de George Floyd gerou uma onda de protestos nos EUA e no mundo.
O caso de mais um homem Negro assassinado covardemente por policiais brancos nos Estados Unidos reacendeu os debates e protestos sobre o racismo em várias partes do mundo. Foi a gota d'água pra uma situação que sempre aconteceu, mas passou a ter mais repercussão devido à difusão dos celulares e da resposta rápida das redes sociais. A polícia nunca se intimidou em nos assassinar, nem mesmo com a presença de testemunhas ou câmeras.
 A seguir, 10 pontos sobre como podemos evitar a perpetuação do racismo:

1. O QUE É SER ANTIRRACISTA?
É se posicionar, com ações teóricas e práticas, contra todas as formas de discriminação impostas a um ser humano por causa de sua etnia. 

2. O RACISMO É UM PROBLEMA DA SOCIEDADE INTEIRA
Não deve ser visto como uma questão exclusiva dos negros. Toda a sociedade precisa participar, independentemente da sua cor.

3. OS NEGROS SÃO OS PROTAGONISTAS 
As pessoas brancas podem (e devem) apoiar a luta antirracista, mas nunca devem falar pelos negros. É importante respeitar o lugar de fala de quem já passou por experiências que você desconhece.

4. RECONHECER O COLORISMO
Entender que existem inúmeras tonalidades na pele negra e que, quanto mais escura, maiores as chances da pessoa ser alvo de racismo. Contudo, isso não torna os “negros de pele clara" menos negros que os demais. 

5. RECONHECER O PRIVILÉGIO BRANCO
Não quer dizer que os brancos não sofrem dificuldades, mas que sua cor não foi um empecilho. Os brancos recebem, em média, 72,5% a mais que os negros, de acordo com o IBGE. Este é apenas um dos exemplos. 

6. QUESTIONAR O RACISMO ESTRUTURAL
Segundo o IBGE, a população negra é maioria no Brasil (cerca de 54%), mas raramente ocupa cargos de chefia nas grandes empresas.

7. COMBATER OS ESTEREÓTIPOS 
Não julgue nossa índole pelo bairro de onde viemos, pelo cabelo ou pela roupa que usamos.

8. LUTAR PELO FIM DA VIOLÊNCIA POLICIAL E DO ENCARCERAMENTO EM MASSA DA POPULAÇÃO NEGRA.
 Quase a totalidade das pessoas mortas por policiais é homem (99,3%) e a maioria é negra (75,4%). As vítimas também são, em geral, jovens de 15 a 29 anos (54,8%).

9. LEIA, OUÇA E APRENDA
Busque o conhecimento através das músicas, livros e produções audiovisuais de pessoas negras.

10. QUESTIONE PRESENÇAS E AUSÊNCIAS
Observe as pessoas que aparecem (ou não) nos locais que você frequenta e nos programas, filmes e séries que você assiste. Não se cale diante das disparidades.

terça-feira, 26 de maio de 2020

"Ninguém tem o direito de matar em nome de Deus", diz Alpha Blondy


Já tive o privilégio de ver o show do marfinense Alpha Blondy pessoalmente aqui em Salvador e foi uma experiência incrível. Ontem, eu estava assistindo ao show dele no Festival Rockpalast, em 2017, e me deu vontade de traduzir e transcrever pelo menos um dos vários belos discursos que ele faz antes de algumas músicas. O discurso contra as guerras, contra o colonialismo e contra o mau uso da religião para fins políticos questionáveis são os mais frequentes em suas músicas. Muitas coisas podem servir de exemplo para outras realidades, inclusive a nossa do Brasil, onde alguns políticos hipócritas tentam esconder suas atitudes medíocres e assassinas atrás de um suposto discurso religioso.
Logo após anunciar Spiritual Crime, Alpha Blondy diz:

Não faça mau uso do santo nome de Deus. Ninguém tem o direito de matar em nome de Deus!
Ninguém tem o direito de usar o santo nome de Deus pra justificar um crime. É o que todos nós dizemos.
Deus diz na Torá: "Não matarás!"
Deus diz na Bíblia: "Não matarás!"
E Deus diz no Corão: "Não matarás!"
E no Corão, Deus diz: "Se você mata um inocente, é como se você tivesse matado a humanidade inteira. Se você salva a vida de um inocente, é como se estivesse salvando a vida de toda a raça humana."

É isso o que estamos dizendo: Não envolva Alah em seus crimes! Não envolva Maomé em seus crimes!
Porque Alah não é um deus do terrorismo. Porque Maomé não é um profeta do terrorismo.

O momento desta fala (em inglês) pode ser visto a partir do minuto 00:40:04. Você pode assistir o show inteiro aqui:



segunda-feira, 25 de maio de 2020

25 de Maio - Dia da África


No dia 25 de maio de 1963, chefes de estado e diplomatas de 32 países africanos independentes se reuniram em Adis Abeba, capital da Etiópia, a convite do imperador Haile Selassie, para traçar uma estratégia visando uma unificação do Continente Africano. Esse encontro aconteceu de 22 a 25 de maio e se encerrou com a criação da Organização da Unidade Africana (OUA). Nove anos depois, em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o 25 de maio como Dia da Libertação Africana, ou o Dia da África.

A OUA nasceu com os objetivos de promover a unidade e solidariedade entre os estados africanos; coordenar e intensificar a cooperação entre eles, para garantir uma vida melhor para os povos; defender a soberania, integridade territorial e independência desses estados; erradicar todas as formas de colonialismo; promover a cooperação internacional, respeitando a Carta das Nações Unidas e a Declaração Universal dos Direitos Humanos; e coordenar e harmonizar as políticas dos estados membros nas esferas política, diplomática, econômica, educacional, cultural, da saúde, bem estar, ciência, técnica e de defesa.

Em seu discurso de 1963, Jomo Kenyatta – pai da independência do Quênia – afirmou que a África só seria livre de verdade no dia em que se realizasse uma reunião de cúpula da OUA, na África do Sul, então sob o cruel regime do apartheid. Quase 40 anos depois, em 2002, a Organização das Nações Unidas realizou na cidade de Durban, naquele país, uma nova reunião de cúpula com participação de representantes de 53 países africanos, ratificando e ampliando sua carta magna. Foi o último encontro da OUA e ali nasceu um novo organismo: a União Africana (UA). O Dia da África serve para ajudar os afrodescendentes a refletir sobre o continente de origem de seus antepassados. Além de olhar para as civilizações que antecederam à Conferência de Berlim, que retalhou aquele continente com mais de 30 milhões de quilômetros quadrados e leiloou os pedaços entre potências europeias, temos de procurar conhecer a África de hoje.

Apesar de tudo, ainda precisamos perceber a África como realmente é: um continente vasto e plural, com suas particularidades culturais, climáticas e socioeconômicas. Não devemos generalizar os aspectos negativos, como a maioria das mídias faz frequentemente. O dia de hoje serve para perceber o quanto todos nós Negros nascidos na África ou na Diáspora já avançamos e onde precisamos avançar, pra superar o racismo e todas as outras formas de preconceitos e desigualdades.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Comunidades Negras e Estado policial, por Malcolm X


As estatísticas fazem o público branco pensar que a periferia é uma área criminosa, onde todos estão prontos para a violência. A polícia fica à vontade para ir lá para brutalizar, eliminar e assustar os Negros.

Quando qualquer coisa acontece, 20 viaturas aparecem. Isso não assusta os Negros. Essa força cria um ressentimento em todos os Negros. Eles sentem que estão num Estado policial. Eles se tornam hostis à polícia. Eles sentem que a polícia está contra eles. E esses pensamentos, frustrações e apreensões fazem os Negros buscarem meios de se defenderem caso a polícia passe demais do limite.

Depois que a polícia convence o público branco  de que o Negro é um elemento criminoso, a polícia pode chegar e interrogar, brutalizar e assassinar Negros desarmados e inocentes. E o público branco é manipulável o bastante para lhes dar apoio. Isso faz da comunidade Negra um Estado policial. É o bairro mais patrulhado. Tem mais polícia que qualquer outro bairro e, ainda assim, tem mais crimes que qualquer outro bairro. Como pode ter mais policiais e mais crimes? Como pode? Isso nos mostra que a polícia deve estar envolvida com os criminosos. 




quarta-feira, 18 de março de 2020

Na CNN Brasil, Luciana Barreto não quer ser a “âncora negra”



Luciana Barreto não quer ser uma história única. Ela não deseja ser conhecida como a âncora negra da CNN, comparada à jornalista Maju Coutinho e muito menos ser tratada como uma super mulher que, por mérito próprio, chegou onde está hoje. “Quero apenas que esses espaços sejam democráticos para que todas acessem”, explica.
A opção pelo jornalismo nasceu da urgência de mostrar o que acontecia na Baixada Fluminense, região onde nasceu. “Eu e minha mãe vimos um barraco pegar fogo com duas crianças e isso não era notícia. As mazelas periféricas não eram notícia”, conta a apresentadora. “Fui crescendo com o sonho do jornalismo para denunciar os problemas sociais”. A partir daí, nem a rotina acordando às 3 horas da manhã para chegar às 8 horas na PUC-RJ, onde estudou como bolsista, a desanimaram.
Conforme crescia na carreira e ocupava cada vez mais espaços de poder, Luciana percebeu que precisava estudar a fundo as relações étnico-raciais no Brasil. Em seu mestrado, mergulhou numa pesquisa sobre o discurso de ódio contra negros nas redes sociais, tentando entender as raízes dessa violência para oferecer uma forma de combate.
Hoje, aos 43 anos, sua militância vai desde palestrar sobre diversidade para grandes CEOs do país até ensinar coisas básicas aos seus colegas de trabalho. “Brinco que quando entro em um lugar novo faço um trabalho gratuito de letramento racial. Vou falando, plantando uma semente para eles entenderem”, conta. “Quando você abre a mente da pessoa branca dentro das redações, é um mundo sem volta. É como se você tivesse tirado uma lente do rosto.”
Prestes a estrear na nova emissora, conversamos com Luciana sobre o avanço – ou retrocesso – do debate das questões étnico-raciais no Brasil, maternidade e o Visão CNN, programa em que ela quer continuar fazendo o que acredita ser sua missão de vida: representar diferentes olhares no jornalismo.
Tpm. Em vídeo produzido pela CNN, você se emocionou ao relembrar sua origem periférica. O que significa para você chegar ao posto de âncora de uma emissora internacional?
Luciana Barreto. Na festa de lançamento da CNN, quando estava falando e olhei para baixo vi o Vice-presidente, o Presidente da Câmara, o Presidente do Senado e um filme passou na minha cabeça. Um filme da minha origem, de toda essa história periférica, de tentar acessar muitas vezes esses locais de poder para falar sobre determinados assuntos. É um momento muito especial. Não digo mágico porque precisamos batalhar muito. O que eu queria frisar é a importância da gente parar de falar das histórias únicas, como a primeira pessoa a ocupar determinado cargo, porque isso leva muito ao discurso meritocrático, de que você conseguiu por esforço. Não queremos que essas histórias sejam únicas, mas sim que esses espaços sejam democráticos para que todas acessem.
Algumas chamadas de matérias falavam que, se a Globo tinha a Maju Coutinho, a CNN teria a Luciana Barreto
Isso reforça os perigos de uma história única, como diz a escritora Chimamanda Ngozi. Não temos que ser únicos em um espaço, até porque a gente reforça, como eu te digo, esse discurso do mérito. No meu caso é ainda um pouco pior porque tenho uma história de periferia, de pobreza, e muitas pessoas associam a uma questão quase de um ser especial, de uma super mulher, que não tem que existir.
Como foi sua infância na Baixada Fluminense e quando o jornalismo surgiu na sua vida? 
O jornalismo para mim é um desejo de infância e tem muito a ver com a Baixada Fluminense. Não era só sonho, era uma obstinação. Eu cresci em um lugar com muita desigualdade social, muita pobreza. Ninguém da minha família ou do meu bairro tinha acessado a universidade, fui a primeira. Eu via que a única forma de denunciar os problemas no entorno era através do jornalismo. Por exemplo: minha mãe era conselheira tutelar e vimos um barraco pegar fogo com duas crianças. E isso não era notícia, as mazelas periféricas não eram notícia. Então eu percebi ali que existia uma desigualdade no olhar para a notícia. Fui crescendo com o sonho do jornalismo para denunciar os problemas sociais. Depois de um tempo, pensei o quanto isso era desigual também no olhar das pessoas, das relações étnico-raciais. Meu jornalismo nasce como denúncia. Era um desejo de infância e foi se lapidando ao longo da minha carreira.
Você teve apoio da sua família quando escolheu sua profissão? 
Como toda família pobre, eles achavam que ao você ter um pouquinho mais de capacidade intelectual você devia fazer um concurso público, pensar em ganhar um bom salário. Quando você fala que vai ser jornalista, e vêem que o salário não é alto, eles começam a pensar se não era melhor ter um cargo militar ou tentar um concurso público. Porque muitas vezes o que acontece com a pobreza é tentar garantir a sobrevivência. Mas jornalismo para mim nunca foi só uma profissão e uma forma de ganhar dinheiro. Jornalismo sempre foi minha missão de vida.
Você sempre desejou trabalhar na televisão? 
Não, pelo contrário. Eu sempre quis trabalhar em jornal impresso, tinha o sonho de trabalhar no antigo Jornal do Brasil. Mas no ano em que entrei na faculdade, em 1997, ele abriu falência. Mesmo tendo bolsa de 100% na PUC, através de um projeto social, eu precisava me manter, pagar passagem. Meu trajeto era muito longo. Tinha que acordar por volta das três da madrugada porque pegava o ônibus das 4h15 para a aula das 8h. Então eu fazia vários bicos, como faxina, vender coisas, até conseguir o meu primeiro estágio, no Canal Cultura. Achava que a televisão era sempre uma transição e um dia ia chegar ao jornal. Mas fui passando de canal em canal, e em um belo momento me colocaram no vídeo. Já sabiam que era uma afeição minha, eu é que demorei a compreender. Até hoje gosto de escrever artigos, mas não foi possível manter a minha vida no impresso.
Lucina Barros em pé ao lado do logo da CNN
(Foto: Arquivo pessoal)
A rotina era realmente muito corrida.
 Muito. Ainda fiz história ao mesmo tempo que o jornalismo, só não me formei. Tinha a PUC de manhã, à tarde eu fazia o estágio e à noite eu ia para a faculdade de história. Era enlouquecedor. Chegava em casa meia noite para acordar às 3h. Foi uma rotina louca que eu não consegui levar por muito tempo.
E como surgiu a vontade de fazer um mestrado sobre relações étnico-raciais? 
Ao longo da minha carreira jornalística, por ser uma das poucas apresentadoras negras da TV, fui entendendo também um outro caminho de ativismo, que tinha a ver com mídia e racismo. Em uma viagem aos EUA, ainda no governo Barack Obama, conheci um projeto no Alabama, que tinha a ver com discurso de ódio, e me apaixonei. Era uma plataforma que ensinava aos professores e educadores de toda a rede pública de ensino do Alabama a combater o discurso de ódio, porque eles tinham uma diversidade muito grande lá. Percebi que no Brasil não tínhamos um estudo relacionado ao tema e resolvi pesquisar isso na minha dissertação de mestrado.
As questões étnico-raciais sempre foram presentes em sua vida? 
Eu acho que não existe um negro no Brasil que não é atingido por essas questões, por mais que ele fale que ele não presta atenção nos problemas sociais. Na minha casa não tinha essa discussão mas, como uma família miscigenada, havia todos os elementos das relações étnico-raciais. O tio, o primo, a tia que brinca de falar palavras racistas. Todos os elementos são postos à mesa, mas ninguém discute.
E o que você pensa sobre isso hoje em dia? 
A nossa racialidade é muito mal resolvida. Estudamos pouco sobre isso e agora quanto mais você trata essa questão como um tabu, quanto mais você tenta minimizar dizendo que ela não existe, mais ela se agrava. Hoje palestro para grandes empresas no Brasil e percebo que muitos CEOs estão querendo discutir e resolver o problema da diversidade, a forma de contratação dentro da sua própria empresa. Não falar sobre é a pior solução. O Brasil ainda precisa sentar à mesa para discutir as relações étnico-raciais, que são resultado de 350 anos de escravidão.
No podcast do Trip Com Ciência você fala da importância da inclusão de pessoas diversas no jornalismo. O que se ganha com essa diferença de olhares? 
A pauta ganha porque a redação está sempre cheia de olhares únicos. Uma pessoa com outro olhar abre um mundo totalmente novo, que outras sequer pensaram. O jornal ganha porque ele não é mais do mesmo. Outro dia, estava vendo uma editora grande discutindo questões de tiroteios no Rio de Janeiro e todos os comentaristas tinham o mesmo olhar. Provavelmente vieram de uma mesma raiz, um mesmo tipo de educação. Eles falavam coisas que não condiziam com as ideias de muita gente igual a mim. Faltava uma visão de mundo, uma vivência. O público precisa de fatos para formular a análise na cabeça dele. Se tudo é dado com uma única visão, fica muito pobre.
Segundo dados da Énois, os cursos de jornalismo do país têm quase 40% de negros (pretos e pardos), mas esse número cai quase pela metade nas redações. Você percebeu isso onde trabalhou
Desde o primeiro momento. O tempo inteiro isso me incomodou e me incomoda. Onde eu entro faço um trabalho gratuito de letramento racial. Vou falando, plantando uma semente para eles entenderem. Você já percebeu que aqui não tem um estagiário negro? Você já percebeu que aqui não tem um profissional negro? E por aí vai. Esse trabalho, que eu brinco chamando de letramento racial, é o beabá mesmo, o básico. Quando você abre a mente dessa pessoa branca dentro das redações é um mundo sem volta. É como se você tivesse tirado uma lente do rosto, ela começa a observar o mundo de outra maneira. Já vi isso em muitos chefes. Eu brinco que faz parte constranger o branco, tirar a pessoa daquela zona de conforto. Isso serve para aquecer o nosso debate.
(Foto: Divulgação/ CNN)
Como mudar essa situação? 
Temos que mudar os critérios da sociedade, porque muitas vezes eles são racistas. Por exemplo: se você quer contratar alguém e quer que ela chegue 5 da manhã no trabalho, você já exclui uma pessoa periférica que não tem um ônibus que comece a rodar tão cedo. É um exemplo bobo para entender como temos que pensar nos critérios que a gente utiliza para dar oportunidades na sociedade.
Temos visto muitos casos de jornalistas tendo comportamentos racistas. Um dos mais emblemáticos ocorreu com o William Waack, um dos principais nomes da CNN. Isso foi uma questão para você ao aceitar o convite?
 Olha, eu não falo sobre isso. Porque, além de ser uma questão um pouco mais delicada, diz respeito a um colega de trabalho e a um contrato que não foi feito por mim. Tenho questionado muito as pessoas em relação a isso porque nas redes sociais tenho sido cobrada por algo que eu não preciso responder. Para você ver como é um sistema louco, os meus pares brancos não são cobrados. É uma inversão de valores. A gente vive o tempo inteiro em uma sociedade que te exige dia e noite. Exige inclusive que você responda pelo ato de alguém, por uma contratação que não é sua, enquanto os pares seus ficam todos na zona de conforto. E eu fui questionada. Isso não é insano? Eu te pediria que a gente não tratasse desse assunto.
Além de ver poucos negros na redação, poucas mulheres estão em cargos de poder. Vimos recentemente, por exemplo, Patrícia Campos Mello sendo diminuída como jornalista. Você já passou por alguma situação parecida? 
Além de estar atenta a todas essas questões de equidade, eu sou uma mulher negra, então estou com a antena ligada o tempo inteiro. Você percebe, por exemplo, que o entrevistado continua falando em cima da tua fala e, quando seu par homem questiona, ele se cala e espera terminar a pergunta. Isso não passa despercebido para mim e acho que não vai passar despercebido para muitas pessoas. Esses dias eu me impressionei com uma jornalista grande, que eu admiro, falando que nunca tinha pensado sobre essas questões. Porque elas são muito presentes nas nossas vidas, no dia a dia.
Como você reage nessas situações? 
Eu sou uma pessoa que avança. Eu não sou uma pessoa que fico presa nas redes sociais, que volta para ficar respondendo perguntas. Eu estou sempre pensando em como posso trabalhar uma política pública para isso, o que seria bom para termos mais inclusão nesse espaço. Nós somos muitos, e existem aqueles pares que estão preparados para a contenção. Tem gente que está sempre ali voltando, discutindo, debatendo. Eu admiro demais, mas gosto de tratar direto com o CEO de uma empresa, por exemplo, e explicar a ele a necessidade da diversidade. Articular é meu dom, atacar o cerne daquele problema.
Você é mãe. Já foi questionada em algum momento no campo profissional por conta disso? 
Eu fui para o Rio de Janeiro trabalhar na TV Brasil e tive vontade de ser mãe lá. Era uma empresa um pouco menor, não tinha a pressão que temos em outros espaços, mas seria leviano da minha parte falar que foi fácil conciliar tudo isso. Se você tem uma responsabilidade, acorda de madrugada e volta para cada de madrugada, não é a mesma coisa. Eu fui para o Rio de Janeiro, em um jornal que me deixava em uma posição muito confortável, e lá eu vivenciei a maternidade. Ficava muito fora de casa, mas tive todo um espaço para cuidar da minha filha, foi muito bom. A minha força triplicou depois que fui mãe e não consigo hoje imaginar a minha profissão sem a maternidade. Ela me trouxe uma outra visão do mundo e é muito positiva para mim e para as empresas que me contratam porque ela me fez uma profissional ainda mais dedicada.
Como será o Visão CNN, programa que você vai apresentar na nova emissora?
 O Visão CNN é um jornal de notícias com muita análise, com foco em economia, internacional e política. Temos análises de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, além de jornalistas espalhados pelo Brasil inteiro, dando um panorama desses focos. A nossa ideia é sempre ser uma notícia mais trabalhada analiticamente, onde o telespectador vai poder degustar de vários ângulos. Essa é a ideia: trazer um produto com muita análise e aprofundamento.
Fonte: Portal Geledés/ Revista Trip

quarta-feira, 11 de março de 2020

Quando Angela Davis encontrou Malcolm X


Segue um trecho da autobiografia de Angela Davis, quando ela descreve a palestra que Malcolm X fez na Brandeis University, em Walthan, Massachusetts, em 1962:

Era um ano tranquilo e desanimado no campus - até que a complacente sensação de conforto que reinava nessa faculdade branca liberal foi bruscamente abalada pela presença de Malcolm X. No maior auditório do campus, Gwen, Woody e eu nos sentamos um pouco antes das fileiras do meio, tendo a impressão de que a multidão branca que esperava, ofegante, para ouvir este homem que era o porta-voz do profeta Elijah Muhammad nos engolia. Elijah Muhammad se autodenominava o mensageiro do Deus islâmico, escolhido para revelar a mensagem de Alá ao povo negro dos Estados Unidos.

Malcolm X começou seu discurso  com uma eloquência discreta, falando sobre a religião do Islã e sua importância para a população negra dos Estados Unidos. Fiquei fascinada com sua descrição do modo como o povo negro tinha internalizado a inferioridade racial imposta a nós por uma sociedade supremacista branca. Hipnotizada por suas palavras, fiquei chocada ao ouvi-lo dizer diretamente ao seu público: "Eu estou falando sobre vocês! Vocês!! Vocês e seus antepassados, por séculos, têm estuprado e assassinado meu povo!" .

Ele estava se dirigindo a uma multidão totalmente branca, e me perguntei se a partir daquele momento, Gwen, Woody e as outras quatro ou cinco pessoas negras na plateia se sentiram tão escandalosamente deslocadas como eu me senti.
Malcolm falava às pessoas brancas, criticando-as e informando-as sobre seus pecados, alertando-as sobre o armagedom que estava por vir, no qual seriam todas destruídas. Embora eu tenha experimentado um tipo de satisfação mórbida ao ouvi-lo reduzir as pessoas brancas a praticamente nada, sem ser muçulmana, era impossível, para mim, me identificar com sua perspectiva religiosa.

Fiquei pensando que deveria ser uma experiência extraordinária ouvi-lo falar para um público negro. Para as pessoas brancas, ouvir Malcolm tinha sido desnorteante e perturbador. Foi interessante que a maioria delas estava tão empenhada em se defender e se diferenciar de senhores de escravos e segregacionistas do Sul que nunca lhes ocorreu que elas mesmas poderiam começar a fazer algo de concreto para combater o racismo.

Referência: Angela Davis - Uma Autobiografia, Editora Boitempo, p. 132-133.