sábado, 23 de junho de 2018

A história de Romelu Lukaku, contada por ele mesmo


Com o objetivo de dar aos jogadores espaço para contarem detalhes íntimos de sua história pessoal e profissional, o The Players Tribune ficou conhecido no mundo todo. Hoje você confere a história impressionante e comovente de Romelu Lukaku.
Eu lembro exatamente do momento em que estávamos sem dinheiro. Eu consigo visualizar o rosto da minha mãe olhando para a geladeira.
Eu tinha 6 anos, quando cheguei em casa para almoçar durante o intervalo na escola. Minha mãe tinha a mesma coisa no cardápio todo dia: pão e leite. Quando você é criança, você nem pensa nisso. Mas eu acho que é o que poderíamos pagar.
Então, em um determinado dia, eu cheguei em casa, entrei na cozinha e vi minha mãe com uma caixa de leite perto da geladeira, como normalmente. Mas, dessa vez, ela estava misturando algo com isso. Eu não entendi o que estava acontecendo.
Então, ela trouxe meu almoço e sorriu para mim como se tudo estivesse bem, mas eu percebi logo que o que estava acontecendo.Ela estava misturando água com leite. Nós não tínhamos dinheiro suficiente para o leite durar a semana toda.
Nós não tínhamos nada. Não éramos só pobres, não tínhamos nada.
Meu pai foi um jogador profissional de futebol, mas ele estava no fim da carreira, e o dinheiro já tinha acabado. A primeira coisa a “ir embora” foi a TV a cabo. Acabou o futebol, acabou o “Match of the day” (programa sobre futebol). Sem sinal.
Então, eu chegaria em casa à noite e as luzes estavam apagadas. Sem eletricidade por duas ou três semanas às vezes.
Aí eu queria tomar um banho, e não tinha água quente. Minha mãe pegava uma chaleira com água, aquecia no fogão e eu ficava com uma caneca para derrubar a água quente em mim e poder tomar banho.
Algumas vezes, a minha mãe precisava pagar fiado o pão da padaria da rua. Os padeiros conheciam eu e meu irmão, então eles deixavam pegar um pouco do pão na segunda-feira e pagar na sexta-feira.
EU SABIA QUE ESTÁVAMOS COM DIFICULDADES. MAS QUANDO ELA ESTAVA MISTURANDO ÁGUA COM LEITE, EU PERCEBI QUE JÁ ERA, ENTENDE O QUE EU DIGO? ESSA ERA A NOSSA VIDA.
Eu não disse uma palavra. Eu não queria vê-la estressada. Eu só comi meu almoço. Mas eu juro por Deus, que fiz uma promessa a mim mesmo. Foi como se alguém tivesse estalado os dedos e me acordasse. Eu sabia exatamente o que tinha que fazer e o que ia fazer.
Eu não poderia ver minha mãe vivendo assim. Não, não, não. Não poderia ver isso.
As pessoas no futebol adoram falar sobre “força mental”. Bem, eu sou o cara mais durão que você vai conhecer. Porque eu lembro de sentar no escuro com meu irmão e minha mãe fazendo a nossa prece e pensando, acreditando, sabendo… que ia acontecer.
Eu guardei minha promessa só para mim por algum tempo. Mas alguns dias eu chegaria em casa da escola e via minha mãe chorando. Então, finalmente, um dia, eu contei a ela.
“MÃE, AS COISAS VÃO MUDAR. VOCÊ VAI VER. EU VOU JOGAR FUTEBOL PELO ANDERLECHT, E VAI ACONTECER LOGO. EU E MEU IRMÃO VAMOS NOS DAR BEM. VOCÊ NÃO VAI PRECISAR SE PREOCUPAR”.
Eu tinha seis anos. Perguntei ao meu pai “Quando você pode começar a jogar futebol profissionalmente?”. Ele disse: “16 anos”. Eu disse: “Ok, 16 anos então, isso vai acontecer, ponto."
Deixa eu te dizer uma coisa – todo jogo que eu jogava era uma final. Quando eu jogava no parque era uma final. Quando eu jogava no intervalo do jardim de infância, era uma final. Eu estou falando isso muito sério.
Eu costumava arrancar o couro da bola toda vez que chutava. Força total. A gente não apertava R1, não, cara. Eu não tinha o novo FIFA. Não tinha Playstation. Eu não estava jogando por jogar. Eu estava tentando acabar com você.
Quando eu comecei a ficar alto, alguns professores e pais começavam a me irritar. Nunca vou esquecer da primeira vez que ouvi adultos falando para mim, “Ei, quantos anos você tem? Em que ano você nasceu?”.
Eu falava: “Sério? Você está falando sério?”.
Quando eu tinha 11 anos, estava jogando na base do Lièrse, e um dos pais do time adversário literalmente tentou me impedir de entrar no campo. Ele estava “Quantos anos esse garoto tem? Cadê a identidade dele? De onde ele é?”.
Eu pensei “De onde eu sou? Quê? Eu sou da Antuérpia. Eu sou da Bélgica”.
Meu pai não estava lá porque ele não tinha carro para me levar aos jogos fora de casa.
Eu estava sozinho e tinha que me defender sozinho. Eu fui, peguei minha identidade na mochila e mostrei a todos os pais presentes. Ele passavam meu documento um a um para inspecionar e lembro o sangue subindo à cabeça deles. Aí eu pensava:
“AH, EU VOU ACABAR COM O SEU FILHO AINDA MAIS AGORA. EU JÁ IA ACABAR COM ELE, MAS VOU ACABAR COM ELE AINDA MAIS. VOCÊ VAI LEVAR SEU FILHO CHORANDO PARA CASA”.
O maior arrependimento
Eu queria ser o melhor jogador da história da Bélgica. Aquele era meu objetivo. Não um jogador bom. Não um ótimo jogador. O melhor. Eu jogava com tanta raiva por causa de tanta coisa. Pelos ratos que entravam no nosso apartamento, porque eu não poderia assistir a Champions League, por causa de como os pais dos outros garotos me olhavam.
Eu tinha uma missão. Quando eu tinha 12 anos, marquei 76 gols em 34 jogos.
Eu marquei todos usando as chuteiras do meu pai. Quando nossos pés eram do mesmo tamanho, passamos a dividir. Um dia eu fui conversar com meu avô, o pai da minha mãe. Ele era uma das pessoas mais importantes da minha vida.
Ele era a minha relação com o Congo, país que meus pais nasceram. Então, um dia, eu liguei para ele e disse “Eu vou me dar bem. Marquei 76 gols e vencemos o campeonato. Os grandes times estão de olho em mim”. E, como sempre, ele falava que queria ouvir sobre o meu futebol. Mas dessa vez foi estranho. Ele disse: “Sim, Rom, que ótimo, mas você pode me fazer um favor?”.
Eu disse: “Claro, o que é?”
Ele falou: “Pode cuidar da minha filha, por favor?”
Eu lembro de estar muito confuso, pensando “o que o vovô tá falando?”.Eu falei: “Minha mãe? Estamos bem, está tudo bem”.
Ele disse: “Não, me prometa. Você pode me prometer? Cuida da minha filha por mim, ok?”
Eu falei: “Ok, vô, pode deixar. Eu prometo”.
Cinco dias depois, ele faleceu.
Aí eu entendi o que ele quis dizer.
Eu fico muito triste quando penso nisso porque eu queria que vivesse mais quatro anos para me ver jogar no Anderlecht. Para ver que eu cumpri minha promessa, sabe? Ver que tudo ia ficar bem.
Eu disse para a minha mãe que ia conseguir isso aos 16 anos. Eu errei a previsão por 11 dias.
24 de maio de 2009. A final entre Anderlecht e Standard Liège. Foi o dia mais louco da minha vida. Mas temos que voltar um minuto porque no começo da temporada, eu mal estava jogando pelo sub-19 do time.
Ele estava sempre me colocando para jogar saindo do banco de reservas. Eu ficava pensando “Como vou conseguir assinar meu contrato profissional no meu aniversário de 16 anos se sou reserva do sub-19 do time?”
Então eu apostei com o técnico. Eu disse a ele “Eu te prometo uma coisa. Se você me colocar para jogar, vou marcar 25 gols até dezembro”. Ele riu. Ele literalmente riu de mim.
Eu disse a ele: “Então faremos uma aposta”
Ele respondeu: “Ok, se você não fizer 25 gols até dezembro, você volta ao banco”.
Eu respondi a ele: “Tudo bem, mas se eu vencer, você vai mandar limpar as minivans que levam os jogadores do treino”.
Ele disse: “Ok, estamos em acordo”.
Eu ainda disse: “Ah, tem mais uma coisa. Você vai fazer panquecas para o time todo dia”.
Ele falou: “Ok, tudo bem”.
Aquela foi a aposta mais burra que aquele cara já fez. Eu marquei 25 gols e ainda estávamos em novembro. Nós estávamos comendo panquecas antes do Natal, cara. Que isso vire uma lição. Você não pode brincar com um garoto que está com fome!
Resultado de imagem para lukaku manchester united
Atualmente, Lukaku joga pelo Manchester United-ING
Romelu Lukaku lembra do seu primeiro gol
Eu assinei meu contrato profissional no dia do meu aniversário, 13 de maio. Fui direto comprar o novo Fifa e um pacote de TV paga.
Já era o final da temporada então eu estava tranquilo em casa. Mas o Campeonato Belga estava louco naquele ano porque Anderlecht e Standard Liège terminaram a competição com a mesma pontuação. Então, precisaram de dois jogos para definir o campeão.
No primeiro jogo, eu estava em campo vendo TV como um torcedor. Um dia antes da segunda partida, eu recebo uma ligação do técnico do time reserva.
“Alô?”
“Oi, Lukaku, o que você está fazendo?”
“Vou jogar bola no parque”.
“Não, não, não, arrume suas coisa. Agora mesmo”
“O que? O que eu fiz?”
“Não, não, não, você precisa vir ao estádio agora. O time principal precisa de você agora”.
“Cara… que?! Eu?!”
“É, você mesmo. Venha pra cá agora”
Eu simplesmente corri para o quarto do meu pai e estava como “Cara, vem para cá agora, você tem que vir”.
Ele disse: “O quê? Onde? Ir para que lugar?”
Eu disse: “ANDERLECHT, CARA”
Eu nunca vou esquecer, eu apareci no estádio e corri para o vestiário. O roupeiro me perguntou: “E aí, garoto, qual número você quer?”
Eu disse: “Me dá o número 10”.
O roupeiro disse: “Ok, garoto, que número você quer?”. Eu voltei a responder: “Me dá a 10”. Hahahaha Eu não sei, eu era muito novo para ficar assustado.
Ele disse: “Jogadores da base precisam escolher números acima de 30”.
Eu disse: “Ok, bem, 3 + 6 = 9. Esse é um número legal, então me dá a 36”.
Naquela noite no hotel, os jogadores mais velhos me fizeram cantar uma música para eles no jantar. Eu não lembro qual escolhi. Minha cabeça estava girando.
Na manhã seguinte, meu amigo bateu na porta da minha casa para saber se eu queria jogar futebol com ele, e a minha mãe respondeu. “Ele saiu para jogar”.
“Jogar onde?”
Minha mãe respondeu: “A final”.
Nós saímos do ônibus para o estádio, e cada jogador entrava com uma roupa muito legal. Menos eu. Eu saí do ônibus com uma roupa horrível, e todas as câmeras de TV filmavam meu rosto.
O caminho até o vestiário era de 300 metros. Quando eu coloquei meu pé no vestiário, meu telefone começou a tocar sem parar. Todos me viram na TV. Eu tive 25 mensagens em 3 minutos. Meus amigos estavam loucos.
“Cara! VOCÊ ESTÁ NO JOGO?!””Lukaku, o que está acontecendo? Por que você está na TV?”
A única pessoa que eu respondi foi meu melhor amigo. Eu disse “Cara, eu não sei se vou jogar. Eu não sei o que está acontecendo. Mas fica ligado na TV”.
No minuto 63, o técnico me colocou no jogo. Eu entrei no gramado pela primeira vez como jogador profissional do Anderlecht aos 16 anos e 11 dias.
Nós perdemos a final aquele dia, mas eu estava no paraíso. Eu cumpri minha promessa com minha mãe e meu avô. Aquele foi o momento em que eu soube que tudo ia ficar bem.
Imagem relacionada
Lukaku atuando pelo Anderlecht, da Bélgica.
A temporada seguinte eu estava terminando o último ano do colégio e jogando a Europa League ao mesmo tempo. Eu levava uma mochila grande para a escola para poder pegar um voo à tarde. Nós vencemos o campeonato com folga, e eu terminei em segundo como o melhor jogador africano do ano. Aquilo foi…loucura.
Eu realmente esperava que tudo isso ia acontecer, mas talvez não tão rápido. De uma hora para outra, a mídia estava falando de mim e colocando todas essas expectativas sobre mim. Especialmente em relação à seleção belga. Não sei por qual razão, mas eu não estava jogando bem pela Bélgica. Não estava dando certo.
Mas, cara, vamos lá. Eu tinha 17! 18! 19!
Quando as coisas estavam caminhando bem, eu li as reportagens dos jornais e eles estavam me chamando de Romelu Lukaku, o atacante belga.
Quando as coisas não estavam bem, eles me chamavam de Romelu Lukaku, o atacante belga de origem congolesa.
Se você não gosta do jeito que eu jogo, tudo bem. Mas eu nasci na Bélgica. Eu cresci na Antuérpia, Liège e Bruxelas. Eu sonhei em jogar pelo Anderlecht. Eu sonhei em ser Vincent Kompany. Eu consigo começar uma frase em francês e terminar em holandês, e posso jogar umas palavras em espanhol ou português ou Lingala, dependendo do bairro onde eu estava.
Resultado de imagem para lukaku chelsea
O atacante atuou pelo Chelsea, mas não foi muito aproveitado pelo português José Mourinho.
Eu sou belga.
Todos somos belgas. É isso que faz esse país legal, sabe?
Eu não sei porque algumas pessoas no meu país querem me ver fracassar. Eu não sei mesmo. Quando eu fui para o Chelsea eu não estava jogando e ouvia rirem de mim. Quando eu fui emprestado ao West Brom, eu ouvi rirem de mim.
Mas tudo bem. Aquelas pessoas não estavam comigo quando a minha família estava colocando água no meu cereal. Se você não estava comigo quando eu não tinha nada, então você não pode me entender.
Você sabe o que é engraçado? Eu perdi 10 anos de Champions League quando criança. Não podíamos pagar. Eu ia para a escola e as crianças falavam da final, e eu não tinha ideia do que tinha acontecido. Lembro que, em 2002, o Real Madrid enfrentou o Bayer Leverkusen, e todos estavam reagindo: “Nossa, aquele voleio! Meu deus, aquele voleio”
Eu tinha que fingir que estava tudo bem.
Duas semanas depois, estávamos na sala de computadores da escola, e um dos meus amigos baixou um vídeo da Internet, e eu finalmente pude ver o voleio de Zidane com a perna esquerda.
Naquele verão, eu fui até a casa dele para ver o Ronaldo Fenômeno jogar a final da Copa do Mundo. Tudo o que aconteceu antes no Mundial eu só tinha ouvido dos garotos e garotas da escola.
Hahaha, eu lembro que tinham grandes buracos nos meus tênis em 2002. Grandes buracos.
Doze anos depois, eu ESTAVA na Copa do Mundo.
Resultado de imagem para Lukaku
Lukaku marcou dois gols na partida de hoje contra a Tunísia pela Copa do Mundo da Rússia.
Agora vou jogar outra Copa do Mundo, e meu irmão Jordan Lukaku está comigo dessa vez. Dois garotos da mesma casa, da mesma situação adversa e que conseguiram superar.
Você quer saber? Eu vou lembrar de me divertir dessa vez. A vida é muito curta para estresse e drama. As pessoas podem dizer o que quiser sobre o nosso time e eu.
Cara, me escuta – quando éramos crianças, não podíamos ver Thierry Henry no programa Match of the Day. Agora estamos aprendendo com ele, que faz parte da comissão técnica da Bélgica.
Eu estou com uma lenda e ele está me ensinando a correr no espaço como ele mesmo fazia.
Ele pode ser o único cara do mundo que assiste mais futebol que eu. Nós falamos sobre tudo. Nós estamos juntos falando sobre a Segunda Divisão da Alemanha.
“Thierry, você viu o Fortuna Düsseldorf?”
“Claro, Rom, não seja bobo, eu vi sim”.
Essa é a coisa mais legal do mundo para mim.
Eu gostaria muito, muito mesmo, que meu avô pudesse testemunhar isso.
Não estou falando de jogar a Premier League. No Manchester United. Jogar a Champions League. A Copa do Mundo.
Não é isso que eu falo. Eu só gostaria que ele estivesse aqui para ver a vida que temos agora. Eu gostaria de ter mais um telefonema com ele e eu poderia dizer…
“VIU? EU TE DISSE. SUA FILHA ESTÁ BEM. NADA DE RATOS NO NOSSO APARTAMENTO. NADA DE DORMIR NO CHÃO. NADA DE PREOCUPAÇÃO. ESTAMOS BEM AGORA. ESTAMOS BEM…ELES NÃO PRECISAM CHECAR MEUS DOCUMENTOS AGORA. AGORA, ELES SABEM MEU NOME”.

Fontes: Premier League Brasil/ The Players Tribune 

Cissé, a exceção que confirma a regra


sábado, 16 de junho de 2018

Astro da Inglaterra, Dele Alli poderia ser príncipe na Nigéria



Filho de pai nigeriano e mãe inglesa, Dele Alli teve infância difícil e encontrou no futebol o seu refúgio.
Bamidele Jermaine Alli, 22, poderia poderia ser um príncipe da tribo Iorubá, a segunda maior etnia da Nigéria, mas ele renegou esse prestígio, se tornou Dele Alli e vai disputar a primeira Copa do Mundo com a camisa da Inglaterra.

Filho de pai nigeriano e mãe inglesa, o astro do Tottenham teve uma infância complicada. 
Nascido em Milton Keynes, na Inglaterra, se mudou aos nove anos com o pai, Kehinde, para a Nigéria e foi estudar na cidade de Lagos.

Empresário, Kehinde se mudou para os Estados Unidos dois anos depois e, aos 11 anos, Dele retornou à Inglaterra para morar com a mãe. Denise, no entanto, sofria de alcoolismo e o garoto encontrou seu refúgio no futebol. 

Os primeiros passos foram no MK Dons, time local que defendeu entre 2011 e 2015. Como tinha de ir de transporte público aos treinos, decidiu morar na casa da família de um amigo de time.

Kehinde Alli, pai de Dele, pertence à linhagem real Iorubá.


Foi nesse momento que a relação com sua família se desgastou por completo. Com o pai distante e a mãe com problemas de saúde, Dele se apoiou nas pessoas que cuidavam de sua carreira.
Não demorou muito para despontar como promessa inglesa. Em fevereiro de 2015, foi contratado pelo Tottenham por 5 milhões de libras (cerca de R$19,5 milhões, na cotação atual). Em novembro do mesmo ano, já estava na seleção principal da Inglaterra.

No ano seguinte, já com status de titular no clube inglês, o meia tomou uma decisão que chamou atenção. Sempre com o número 20, ele levava o nome Alli nas costas, porém, em uma entrevista coletiva, anunciou que passaria a usar apenas Dele. O sobrenome Alli, do pai, não o representava:

Eu queria um nome na minha camisa que representasse quem eu sou, e eu sinto que Alli não tem nenhuma conexão comigo. Esta não é uma decisão que tomei sem nenhuma reflexão e discussão com familiares que são próximos a mim.

O camisa 20 abriu mão do sobrenome "Alli" e passou a utilizar apenas o "Dele" nas costas (Foto: Getty Images)
O camisa 20 abriu mão do sobrenome "Alli" e passou a usar apenas "Dele".

Curiosamente, o discurso veio meses depois de uma entrevista do seu pai ao jornal Daily Star em junho de 2016, na qual afirmou que Dele Alli seria príncipe na Nigéria, se quisesse. O avô do jogador era um rei Iorubá:

Se Dele voltasse para a Nigéria agora, seria uma loucura. Ele teria recepção presidencial onde quer que fosse. Todo mundo assiste ele jogar e tem orgulho. Ele abre todas as portas pra ser um príncipe. Por ser quem é, ele pode conversar com nosso primeiro-ministro e o presidente, se ele quiser.

O ex-jogador John Fashanu, que vestiu a camisa da seleção inglesa e também pertence à etnia Iorubá reforçou:

A chance de Dele ser um príncipe na Nigéria é absolutamente enorme. Isso lhe daria muito respeito. Se ele voltasse a morar aqui (na Nigéria), talvez, um dia, ele pudesse ser o rei da tribo Iorubá.

Segundo relatos de sua mãe em entrevistas posteriores, ela e alguns familiares tentam entrar em contato constantemente com o jogador, que renega qualquer tipo de reaproximação. O pai, inclusive, foi flagrado nas arquibancadas do White Hart Lane, no início deste ano, para assistir ao filho atuar contra o Middlesbrough.

Se haverá alguma reconciliação nesse caso, só o tempo irá dizer. O certo é que Dele atingiu o nível máximo de um jogador de futebol e vai defender a Inglaterra em sua primeira Copa do Mundo, aos 22 anos. Sua estreia no Mundial da Rússia será na próxima segunda-feira contra a Tunísia, às 15h (horário de Brasília) pelo grupo G, e ele é uma das grandes esperanças da seleção para erguer novamente um troféu que não conquista desde 1966.

Fonte: Globo Esporte.com

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Falz - This is Nigeria


Nascido Folarin Falana, o rapper e ator nigeriano Falz, que também é advogado e filho do famoso advogado e ativista pelos direitos humanos Femi Falana, se notabiliza por emitir opiniões fortes e críticas sociais diversas, como à corrupção, à violência policial (que até ele mesmo já foi vítima recentemente, como pode ser visto neste LINK EM INGLÊS) e ao oportunismo das igrejas na Nigéria, entre outras coisas, o que não é tão comum no país, devido à repressão das forças governistas a este tipo de posicionamento.

Feitas as devidas apresentações, sugiro que veja o vídeo antes de continuar:

This is Nigeria é uma versão nigeriana para uma das músicas mais comentadas de 2018 até então, This is America, de Childish Gambino (veja mais sobre ela NESTE LINK). A versão africana é cheia de referências aos problemas sociais e políticos enfrentados pelo país nas últimas décadas, como se pode ver nos primeiros segundos do clipe. Falz segura um rádio, enquanto segue um discurso: Extremamente pobre. Os hospitais e  postos de saúde são pobres. Nós operamos um sistema capitalista predatório e neocolonial, que é fundado sobre a fraude e exploração e, portanto, você é obrigado a ser corrupto. Muitas ocorrências criminais são resolvidas em delegacias. 

Um homem vestindo um traje tradicional do povo Fula (ou Fulani), característico do norte e da costa atlântica da África, a exemplo da Guiné, Burkina Faso, Serra Leoa, além da própria Nigéria, entre outros países, sentado calmamente tocando seu goje (instrumento musical também típico da região) levanta-se abruptamente, substitui seu instrumento por um facão e executa um homem imobilizado.

Ao fundo, assim como na versão original, várias ações de violência e caos acontecem ao mesmo tempo, fato recorrente em todo o clipe, embora não com a mesma intensidade de This is America. Falz canta: Esta é a Nigéria/ Veja como estamos vivendo agora/ Veja o que estamos comendo agora/ Todo mundo é criminoso. O cantor se refere aos cerca de 42% da população nigeriana que vive em condições de pobreza extrema, aproximadamente 80 milhões de pessoas, segundo dados do World Poverty Clock, um instituto que contabiliza os índices de pobreza no mundo inteiro. No momento em que escrevo isso, 8% da população mundial encontra-se nesta situação (VEJA AQUI). Em sua versão, as pessoas que dançam ao seu redor não são estudantes, mas mulheres vestidas com trajes tradicionais muçulmanos, com expressões sérias, o que nos chama atenção ao sequestro e estupro de centenas de meninas e mulheres nigerianas pelo grupo extremista islâmico Boko Haram. 

No ato seguinte, vemos uma cena que nos é bastante familiar quando sintonizamos a TV em determinados canais, principalmente de madrugada. Uma simulação de "exorcismo" e promessas de milagres em breve. Claro que isso nunca vem de graça. Logo depois, temos homens tentando ligar máquinas, mas impedidos pelas constantes crises de energia elétrica no país. A letra diz que, mesmo trabalhando em múltiplos empregos, eles são chamados de preguiçosos. Este trecho se refere a uma entrevista do presidente nigeriano Muhammadu Buhari que repercutiu mal no país, ao afirmar que a maioria da população é jovem, mas não possui emprego nem escolaridade, atribuindo a pobreza da Nigéria a uma suposta apatia dos mais jovens, o que causou uma imediata reação nas mídias sociais, inclusive com a hashtag #LazyNigeriaYouth (a matéria sobre o caso pode ser lida, em inglês, AQUI).

Uma das cenas que abordam as desigualdades sociais do país é onde um homem com cordão de ouro, ladeado por duas mulheres, ostenta cédulas de dinheiro, mesmo em meio a todo o caos. Logo depois, a SARS (sigla para Special Anti-Robbery Squad, ou Esquadrão Especial Antirroubo) aborda um grupo de homens que conversava na rua. Depois de subornados, os policiais permitem que o grupo disperse, a exceção de um deles, que, supostamente, não quis ou não pôde pagar e, por isso, continua a ser espancado e executado. Um homem em trajes militares parece tentar fazer um pronunciamento buscando justificar o fato, mas não consegue prosseguir, talvez, por não achar justificativa plausível.

No fim, todos os atores presentes no clipe aparecem juntos, como se saíssem dos personagens, enquanto se ouve uma novo discurso: Mas o que acontece todos os dias é que o sistema tem permitido isso. Por exemplo, não há nenhuma lei que te autorize  a tomar o dinheiro das igrejas e investir em negócios e privatizá-la. Não! Isso acontece apenas na Nigéria! Onde você pode retirar dinheiro da igreja, dinheiro doado por pessoas pobres da congregação e criar uma universidade. Em seguida, os membros não podem entrar. É contra as leis de Deus! É contra a constituição!

Assim como o clipe original que lhe serviu de inspiração, This is Nigeria trata com acidez e boas doses de realidade os problemas enfrentados pelo país, que se tornou um lugar onde a corrupção e a violência estão impregnadas nos mais diversos setores da sociedade, com a agravante de que não é muito comum ver manifestações tão explícitas por lá. As situações enfrentadas pela Nigéria não são muito diferentes do que se passa nos Estados Unidos de This is America ou no Brasil. O colonialismo e o neocolonialismo, a escravidão e a exploração capitalista das grandes potências produziram desigualdades que nos aproximam ideologicamente e fazem com que a identificação ultrapasse as barreiras linguísticas e culturais.




quarta-feira, 16 de maio de 2018

Vídeos, filmes e documentários para debater o racismo


O YouTube possibilita o acesso fácil a todo tipo de material. Alguém teve a brilhante ideia de compilar diversos vídeos que abordam a questão racial e o debate acerca do racismo e das desigualdades sociais advindas dele, mas, como alguns vídeos saíram do ar, eu fui testando um por um e substituindo por outros de temática semelhante, sempre que possível. Minha lista acabou ficando maior que a original. O interessante é que outros vídeos que não estão aqui aparecem como relacionados pela temática, tornando esta lista infinitamente maior.
Confira a lista abaixo:

O Xadrez das Cores: o preconceito e o desafio da acolhida da diversidade
https://www.youtube.com/watch?v=CGIBoGzNMR0

Chacinas nas periferias
https://www.youtube.com/watch?v=53rQggrAouI


Raça Humana
https://www.youtube.com/watch?v=y_dbLLBPXLo


Ninguém nasce assim
https://www.youtube.com/watch?v=6H_xfUCLWBY


Racismo Camuflado no Brasil
https://www.youtube.com/watch?v=zJVPM18bjFY


Negro lá, negro cá
https://www.youtube.com/watch?v=xPC16-Srbu4


Vidas de Carolina
https://www.youtube.com/watch?v=AkeYwVc2JL0


Eu não sou seu Negro
https://www.youtube.com/watch?v=Nt1qqzVhhBM

Negros dizeres
https://www.youtube.com/watch?v=yjYtLxiVQ7M


Quanto Vale ou É Por Quilo
https://www.youtube.com/watch?v=fZhaZdCqrHg

Mulher negra
https://www.youtube.com/watch?v=WDgGLJ3TPQU


Vista Minha Pele
https://www.youtube.com/watch?v=JIvjTmQgXOA

Negro Eu, Negro Você
https://www.youtube.com/watch?v=lpT17VJpnX0


A realidade de trabalhadoras domésticas negras e indígenas
https://www.youtube.com/watch?v=s4UsjpFg2Vg


Espelho, Espelho Meu!
https://www.youtube.com/watch?v=44SzV2HSNmQ


Open Arms, Closed Doors
https://www.youtube.com/watch?v=uXqpOFBXjBs


Boa Esperança - minidoc
https://www.youtube.com/watch?v=3NuVBNeQw0I


Memórias do cativeiro
https://www.youtube.com/watch?v=_Hxhf_7wzk0


Quilombo São José da Serra
https://www.youtube.com/watch?v=f0asl1-SpP4


Introdução ao pensamento de Frantz Fanon
https://www.youtube.com/watch?v=mVFWJPXscm0


Invernada dos Negros 
https://www.youtube.com/watch?v=TCyu-Tb6D1o


A Negação do Brasil
https://www.youtube.com/watch?v=PrrR2jgSf9M

Sua cor bate na minha
https://www.youtube.com/watch?v=gm-WjcZwgvg


História da Resistência Negra no Brasil
https://www.youtube.com/watch?v=68AApIpKuKc


Jongos, Calangos e Folias: Música Negra, Memória e Poesia
https://www.youtube.com/watch?v=DB_AHH3xXYQ

Raça e Racismo no Brasil
https://www.youtube.com/watch?v=RFYQ6axQSho

Relações Étnico-Raciais - Dr. Kabengele Munanga
https://www.youtube.com/watch?v=7FxJOLf6HCA


quinta-feira, 10 de maio de 2018

Essa é a América, não seja pego desprevenido!


Eu já conhecia o ator Donald Glover, que interpretará o jovem Lando Calrissian, no spin-off de Star Wars sobre Han Solo, ainda este mês nos cinemas. Confesso que só fui apresentado ao seu alter ego Childish Gambino com a divulgação do bombástico This is America.

Fico impressionado com o alcance das críticas à violência policial e ao racismo nos Estados Unidos, feitas por artistas consagrados, assim como Lemonade, de Beyoncè e o ato de ajoelhar-se durante a execução do Hino Nacional dos EUA por Colin Kaepernick, enquanto atuava pelo San Francisco 49ers na NFL, e o quanto elas trazem reflexões necessárias, por mais que sejam extremamente conhecidas e debatidas por nós Negrxs. Além disso, a semelhança entre a realidade norte-americana e a nossa faz com que nos identifiquemos com sua mensagem.

This is America, dirigido por Hiro Murai e coreografado por Sherrie Silver, especialista em danças africanas, é cheio de referências e uma das primeiras (e mais óbvias) é ao personagem Jim Crow (uma representação grosseira de pessoas Negras, criada por um pseudo comediante e que deu origem ao famigerado "black face"), quando Gambino atira no homem que está tocando violão. O bom da arte é poder interpretá-la da maneira que ela chega aos nossos sentidos, pois, a cada vez que assistimos ao clipe, novas informações aparecem, quando prestamos atenção aos detalhes. As cenas de violência explícita são feitas para chocar, como se a realidade lhe acertasse um soco no estômago. O fato de ser gravado inteiramente em um galpão é o contraste aos clipes mega produzidos, com carrões, cordões de ouro, piscinas e garrafas de champanhe.
Criado por Thomas D. Rice, Jim Crow foi a gênese do "black face" e deu nome às leis de segregação racial nos EUA, entre o século XIX e a segunda metade do século XX.


Outra referência mais explícita está na roupa dos estudantes que dançam ao seu redor, lembrando o massacre de Soweto, África do Sul, em 1976. Além disso, o coral assassinado faz menção à chacina ocorrida na igreja de Charleston, uma das mais tradicionais igrejas Negras dos EUA, em 2015.
Levante de Soweto, na África do Sul, pode ter servido de inspiração para o figurino das crianças que dançam no clipe.

Há várias coisas acontecendo ao mesmo tempo. Enquanto Childish Gambino e as crianças dançam no centro da tela, incontáveis cenas de violência e tumulto se desenvolvem em segundo plano. Podemos fazer várias leituras disso, inclusive autocríticas. A sequência simboliza o tratamento dado pela mídia ao Negro, como mero entretenimento, enquanto a violência explode e nós somos mortos nas periferias. 

A dança pode simbolizar também uma crítica à "geração tombamento" ("I'm so pretty", ou seja, "eu sou muito bonito"), que preza muito pela beleza estética, mas, muitas vezes, é ausente de conteúdo. Lógico que é importante nos reconhecermos como pessoas bonitas, agradáveis e desejáveis, já que toda a estrutura racista ocidental foi criada para nos tentar fazer acreditar no contrário disso. Só que não podemos esquecer que os colonizadores brancos também nos consideravam "burros" e monopolizaram praticamente todo o conhecimento teórico por séculos, enquanto o direito à alfabetização era negado aos escravizados, ou extremamente precário, quando a escravidão acabou e enquanto as leis de segregação racial vigoraram no país. Estudar é a nossa primeira arma no enfrentamento ao racismo. A mesma crítica vale para grande parte dos artistas de Hip Hop que pregam a ostentação ("Eu tô usando Gucci" e "notas de cem, notas de cem", por exemplo), ao invés do empoderamento real da população Negra.

This is America parte do ponto de vista dos Estados Unidos, mas poderia ser em qualquer quebrada do Brasil. Quando ele diz "não seja pego desprevenido" e "homem Negro, consiga o seu dinheiro", Childish Gambino nos alerta para a necessidade de estar atento à nossa comunidade, aos perigos internos e externos e , ao mesmo tempo, correr atrás da nossa sobrevivência. Fique ligado e permaneça vivo!

sábado, 5 de maio de 2018

Racionais MC's - Negro Drama



Negro drama
Entre o sucesso e a lama
Dinheiro, problemas
Inveja, luxo, fama
Negro drama
Cabelo crespo e a pele escura
A ferida, a chaga
À procura da cura
Negro drama
Tenta ver e não vê nada
A não ser uma estrela longe, meio ofuscada
Sente o drama,o  preço, a cobrança
No amor, no ódio,a insana vingança
Negro drama
Eu sei quem trama e quem tá comigo
O trauma que eu carrego pra não ser mais um preto fodido
O drama da cadeia e favela
Túmulo, sangue, sirene, choros e vela
Passageiro do Brasil, São Paulo, agonia 
Que sobrevivem em meio às honras e covardias
Periferias, vielas e cortiços
Você deve tá pensando o que você tem a ver com isso
Desde o início, por ouro e prata
Olha quem morre, então, veja você quem mata
Recebe o mérito, a farda que pratica o mal
Me ver
Pobre, preso ou morto já é cultural
Histórias, registros, escritos
Não é conto nem fábula
Lenda ou mito
Não foi sempre dito que preto não tem vez?
Então, olha o castelo, irmão
Foi você quem fez, cuzão
Eu sou irmão dos meus trutas de batalha
Eu era a carne, agora sou a própria navalha
Tin, tin, um brinde pra mim
Sou exemplo de vitórias
Trajetos e glórias, glorias
O dinheiro tira um homem da miséria
Mas não pode arrancar de dentro dele a favela
São poucos
Que entram em campo pra vencer
A alma guarda
O que a mente tenta esquecer
Olho pra trás, vejo a estrada que eu trilhei
Mó cota

Quem teve lado a lado
E quem só fico na bota


Entre as frases, fases e várias etapas
Do quem é quem
Dos mano e das mina fraca
Negro drama de estilo
Pra ser e se for
Tem que ser
Se temer é milho
Entre o gatilho e a tempestade
Sempre a provar
Que sou homem e não um covarde
Que Deus me guarde
Pois eu sei que ele não é neutro
Vigia os ricos, mas ama os que vêm do gueto
Eu visto preto por dentro e por fora
Guerreiro
Poeta entre o tempo e a memória, ora!
Nessa história, vejo o dólar
E vários quilates
Falo pro mano pra que não morra e também não mate
O tic-tac não espera, veja o ponteiro
Essa estrada é venenosa e cheia de morteiro
Pesadelo
É um elogio
Pra quem vive na guerra, a paz nunca existiu
Num clima quente, a minha gente sua frio
Vi um pretinho, seu caderno era um fuzil
Um fuzil
Negro drama
Daria um filme:
Uma negra e uma criança nos braços
Solitária na floresta de concreto e aço
Veja

Olha outra vez o rosto na multidão
A multidão é um monstro sem rosto e coração
Em São Paulo, terra de arranha-céu
A garoa rasga a carne. é a Torre de Babel
Família brasileira, dois contra o mundo
Mãe solteira de um promissor vagabundo
Luz, câmera e ação: gravando!
A cena vai
Um bastardo
Mais um filho pardo, sem pai
Ei, Senhor de engenho
Eu sei bem quem você é
Sozinho, cê num guenta
Sozinho, cê num entra a pé
Cê disse que era bom e a favela te ouviu
Lá também tem
Whisky, Red Bull, tênis Nike e fuzil
Admito
Seus carro é bonito
É, eu não sei fazê
Internet, videocassete, os carro loco
Atrasado eu tô um pouco, sim
Tô, eu acho
Só que tem que
Seu jogo é sujo e eu não me encaixo
Eu sou problema de montão
De carnaval a carnaval
Eu vim da selva, sou leão
Sou demais pro seu quintal
Problema com escola, eu tenho mil, mil fitas
Inacreditável, mas seu filho me imita
No meio de vocês, ele é o mais esperto
Ginga e fala gíria
Gíria não, dialeto
Esse não é mais seu
Ó, subiu
Entrei pelo seu rádio, tomei, cê nem viu
Nós é isso ou aquilo
O quê?
Cê não dizia?
Seu filho quer ser preto?
Ahhh, que ironia!
Cola o pôster do 2Pac aí
Que tal? Que cê diz?
Sente o negro drama, vai
Tenta ser feliz
Ei bacana, quem te fez tão bom assim?
O que cê deu, o que cê faz,
O que cê fez por mim?
Eu recebi seu tic, quer dizer kit
De esgoto a céu aberto e parede madeirite
De vergonha eu não morri
To firmão, eis-me aqui
Você, não
Cê não passa quando o mar vermelho abrir
Eu sou o mano, homem duro
Do gueto, Brown
Obá
Aquele louco que não pode errar

Aquele que você odeia amar nesse instante
Pele parda,ouço funk
E de onde vem os diamantes?
Da lama!
Valeu mãe
 Negro drama!